15 março, 2015

Em crise, presidente adota postura solitária e reflexiva


Protestos de março de 2015



Na solidão do Palácio da Alvorada, Dilma Rousseff passa por uma metamorfose clara para seus interlocutores desde que sua Presidência entrou em aguda crise política e econômica, paradoxalmente após a reeleição em 26 de outubro de 2014. 

"Roubaram a presidente", define um ministro próximo. Saiu de cena a censora das tabelas eletrônicas, que reclamava até da cor escolhida para o "layout" da apresentação. 

Recentemente, ela simplesmente rejeitou examinar um arquivo de Power Point. 

Abanando a mão sem paciência, ela disse: "Isso não é comigo", para espanto dos presentes, acostumados ao apego a detalhes técnicos e alíneas de projetos de lei. 

A tentação à disposição do observador distante é a de ver nisso uma capitulação emocional à crise que engolfou o governo. Itens não faltam: Operação Lava Jato e crise na Petrobras, recessão econômica soando suas trombetas, descontrole na articulação com um Congresso arredio. 

Mas, surpreendentemente, os próximos de Dilma veem na presidente uma fase nova –mais leve, não só pelos 13 quilos perdidos por dieta, mas também no humor. As proverbiais broncas e os palavrões foram substituídos, recentemente, por relatos de amabilidades. 

Dilma até aposentou, ao menos por ora, os dois remédios de controle de pressão que costumava usar. Para quem a conhece, essa é uma defesa natural em momentos de dificuldades; nunca é demais lembrar que a presidente passou anos presa e torturada pela ditadura de 1964. 

Este domingo (15) irá novamente testá-la, com protestos previstos em todo o país contra seu governo. Durante a semana, quando foi alvo de um panelaço inesperado em reação a sua fala na TV e foi vaiada em evento na capital paulista, Dilma desabafou sem emoção visível. "É, vamos ter de brigar muito. Mas só não está morto quem peleia", disse, em gauchês, a próximos. 

A Dilma durona, que levava auxiliares ao tratamento médico, deu lugar a uma presidente alvo de especulações em seu círculo restrito. O que teria acontecido? 

Como tudo em Brasília, a questão alçou uma bolsa de apostas no registro da fofoca. 

Uns atribuem a metamorfose à dieta Ravenna. Outros arriscam falar em florais de Bach, panaceia parente da homeopatia. 

Mas foi o ex-presidente Lula quem vocalizou o boato mais frequente. "Mulher, quando faz regime assim, é porque tem namorado". 

Segundo toda a corte mais íntima de Dilma, seu mentor está errado. Fora do trabalho, dizem, ela está cercada de livros, seriados de TV e superstições ligadas ao Alvorada. 


Jorge Araujo - 10.mar.2015/Folhapress
Dilma no Salão Internacional da Construção, na terça (10)
Dilma no Salão Internacional da Construção, na terça (10)
AUTONOMIA
 
Para seus auxiliares Dilma está solitária num momento de crise. Vez ou outra, ela os convoca para despachos no Alvorada no fim do dia, só para emendar um convite para jantar na hora em que eles estão prontos para ir embora. 

Isso é um traço recente, pós-eleição. Dilma está mais reflexiva, dizem. Dias depois de uma conversa com Lula no fim do ano, ela desapareceu do mapa. O relato do diálogo dá conta de que o ex-presidente foi direto: "O que aprendemos com esta eleição?". Sem dar chance de resposta, ele mesmo respondeu: "que precisamos mudar". 

A partir dali, criador e criatura pararam de se falar. Para os lulistas, sempre ávidos a exaltar a inteligência política do chefe, foi o começo dos problemas que hoje assolam a segunda gestão Dilma. 

A principal mudança, a da política econômica –enterrada após anos de expansionismo fiscal na escolha de Joaquim Levy–, ocorreu sem consulta direta ao ladrilho. 

Aloizio Mercadante, o chefe da Casa Civil, tornou-se o único ministro com acesso ao gabinete presidencial naquele momento. Ele esteve com Dilma na definição do primeiro escalão, excruciante processo que acabou só no dia 31 de dezembro, véspera da posse do segundo mandato. 

À distância, Lula confidenciou a amigos: "Esse ministério não aguenta um ano".
Alexandre Tombini, à frente do Banco Central, foi o portador dos números da realidade para Dilma. No fim da campanha eleitoral, ele passou a ela dados objetivos sobre a debacle fiscal que o país vivia, tornando o cavalo de pau na economia inevitável. 

Dilma deu o primeiro sinal dele na entrevista a jornais que concedeu após a reeleição, quando falou em "fazer a lição de casa". Mesmo isso não previa a queda na arrecadação, que acelerou a ideia de um ajuste mais amargo. 

A escolha de Levy entra neste contexto. Ele realmente tem carta branca, e, como provou a pressão para a não derrubada de um veto presidencial que garante uns R$ 5 bilhões a mais para o governo, com a sua ameaça de demissão, o clima é de Fla-Flu. 

Mercadante ganhou influência. A presidente não saiu dos palácios nem conversou com interlocutores externos –exceto o ministro, o que lhe garantiu um alvo na testa dos fofoqueiros. 

Somada à propalada soberba no trato, a ira de petistas e aliados acabou caindo sobre Mercadante pelo isolamento de Dilma. Ele é responsabilizado por medidas desastradas, como a insistência em tentar derrotar Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na disputa pela Presidência da Câmara –o candidato do PT não chegou nem perto.

Mercadante tem uma resposta direta: cita o quase inimputável papa Francisco. "Temos de abolir a intriga e a fofoca na Cúria", equiparando a Esplanada ao órgão diretor do Vaticano. Rejeita o de "primeiro-ministro", lembrando que "o único capaz de roubar a presidente da função é seu netinho".


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