03 março, 2015

Dívida externa privada pode elevar pressão sobre o dólar em 2015

O excesso de recursos disponíveis no mercado financeiro global após a crise de 2008 levou a um boom de endividamento do setor privado brasileiro no exterior. 

A dívida externa de bancos e empresas privados do país dobrou entre o terceiro trimestre de 2009 e o mesmo período de 2014, atingindo US$ 208 bilhões, maior valor da série do Banco Central, iniciada em 1989. 

A explosão de endividamento foi facilitada pelos juros baixos praticados em países desenvolvidos. O Brasil não foi o único mercado emergente a pegar carona nessas circunstâncias, que ajudaram a financiar a expansão de empréstimos domésticos por parte dos bancos que atuam no país e a internacionalização de empresas nacionais. 

Agora, porém, o volume elevado de dívidas nos mercados emergentes tem preocupado. Isso porque há a expectativa de que o Banco Central americano comece a subir juros nos próximos meses, o que pode levar investidores a retirar dinheiro desses países para aplicar nos EUA. 

DESVALORIZAÇÃO
 
Segundo o Banco Central, apenas 16,8% das empresas brasileiras com dívida em moeda estrangeira não possuem nenhum tipo de proteção contra uma desvalorização do câmbio (hedge). 

Outras 16% contam com um tipo de hedge considerado imperfeito. Isso porque o que as protegeria de uma desvalorização são ativos do grupo econômico do qual fazem parte no exterior. Mas é difícil saber se esses ativos poderiam ser facilmente convertidos em recursos caso um socorro seja necessário. 

Mesmo que a fatia de empresas desprotegidas seja, de fato, pequena, os elevados vencimentos de parcelas da dívida externa neste ano podem causas pressão extra sobre o real. 

O volume de amortizações a serem pagas em 2015 é recorde: US$ 102,5 bilhões, incluindo dívidas de curto e longo prazos. Quase 90% desses vencimentos (US$ 89,7 bilhões) são do setor privado. 

"Esse volume alto de amortizações pode colocar pressão extra sobre o câmbio", diz Caio Megale, economista do Itaú Unibanco. 

Para Carlos Caicedo, analista de Brasil da consultoria IHS, as empresas brasileiras tiveram tempo para se preparar para o cenário de real mais fraco, que já era previsto. Mas ele ressalta que sua situação pode se complicar caso o governo perca o grau de investimento, o que aumentaria o custo de rolar as dívidas contraídas. 



Editoria de arte/ Folhatress

"HOT MONEY"
 
O BIS (espécie de Banco Central dos BCs) vem apontando os riscos associados às diversas formas de endividamento externo que ganharam força. 

No caso do Brasil, além de pegar dinheiro emprestado e emitir títulos de dívida em moeda estrangeira, as empresas apelaram para outros tipos de financiamento, como os chamados empréstimos intracompanhias (que não são incluídos na estatística da dívida externa do país). 

Os recursos enviados por filiais de empresas brasileiras no exterior para suas matrizes aqui, que somavam valores irrisórios até meados da última década, começaram a aumentar em 2007 e dispararam nos últimos três anos. Em 2014, atingiram a cifra recorde de US$ 27,8 bilhões. 

Empréstimos de matrizes no exterior para suas filiais no Brasil também tiveram forte expansão, atingindo seu valor mais alto em 2014: US$ 36,1 bilhões. 

Em relatório de dezembro de 2014, o BIS citou o Brasil, a China e a Rússia como exemplos de emergentes onde esse tipo de financiamento disparou. 

Segundo a instituição, é possível que parte desses recursos não tenha como destino o setor produtivo, mas aplicações financeiras. 

Se for o caso, diz o BIS, esses empréstimos são, na verdade, "hot money", "que pode ser retirado do país da noite para o dia". 

No caso do Brasil, se esse risco se materializar, aumentaria a pressão sobre o real.


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