18 janeiro, 2015

Editorial: Guerra às bactérias



Numa rara boa notícia, como não se ouvia há mais de 25 anos, cientistas anunciaram a descoberta de uma nova classe de antibióticos. 

Melhor ainda, a teixobactina revelou-se eficaz ao combater alguns dos piores pesadelos dos infectologistas, como o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), cepas da tuberculose difíceis de tratar e certas variedades do Clostridium difficile. 

Acredita-se que, em até dois anos, a nova droga, que inibe a capacidade da bactéria de sintetizar lipídios usados na formação de sua parede celular, esteja pronta para ensaios clínicos em humanos. 

Havia de fato a demanda por novos fármacos capazes de conter bactérias super-resistentes. O mais recente até aqui, a daptomicina, havia sido descoberto no já longínquo ano de 1987. 

Se bactérias imunes a antibióticos antes afetavam de forma quase exclusiva pacientes imunodeprimidos, que já haviam passado por vários tratamentos, hoje médicos enfrentam infecções comunitárias que não respondem bem às drogas de primeira escolha. 

E as previsões da biologia evolutiva indicam que as bactérias sempre serão mais eficientes em desenvolver resistência do que cientistas em desenvolver drogas. 

Um aspecto do problema diz respeito aos incentivos. A combinação de regras para proteção de patentes consideradas fracas e os custos cada vez maiores para criar, testar e comercializar um medicamento fez com que os grandes laboratórios se desinteressassem da pesquisa de antimicrobianos. Eles preferem dedicar-se a áreas mais rentáveis, como as moléstias crônicas. 

Sem mudanças na política de incentivos ou a mobilização de universidades e laboratórios públicos, novidades tenderão a ser raras. 

O outro aspecto diz respeito ao uso pouco sábio desses antibióticos. Os despautérios começam fora da medicina, com criadores que os utilizam só para facilitar a engorda dos animais, passam por médicos que os receitam mesmo quando não há indicação e terminam nos pacientes que se valem até de falsificações para adquiri-los. 

O péssimo hábito de profissionais de saúde de não lavar as mãos antes e depois de encostar em doentes e equipamentos também contribui para criar ambientes promíscuos nos quais bactérias trocam fragmentos de DNA que as ajudam a driblar a ação das drogas. 

Sem coordenação de esforços para acertar esses aspectos, a crise mundial em torno da resistência a antibióticos só tende a piorar. 


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