17 janeiro, 2015

Calem a boca nordestinos !

Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?

Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?

Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?

Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!

E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…

Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…

E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…

Ah! Nordestinos…

Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?

Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.

Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!

Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!

Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário…. coisa da melhor qualidade!

Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!

Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.

Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.

Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”

José Barbosa Júnior


5 comentários:

  1. Gostei demais deste artigo. Nasci no Rio Grande do Sul, mas sempre (SEMPRE) discordei desta arrogância e preconceito em relação ao Nordeste. Trabalhei anos fora do RS (um conselho que dou a todos os gaúchos e sulinos) e encontrei pessoas maravilhosas de todo este Brasil, principalmente do Nordeste. Gente trabalhadora e decente. Infelizmente o estereótipo está vencendo (o que é lamentável).
    Um abração.

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  2. O título me assustou, mas foi só começar a ler para entender tudo. Os nordestinos merecem todos os elogios. Estou emocionada com o texto

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  3. Pena que a secular indústria da seca não deixa o nordeste progredir para além do campo da literatura, possibilitando aos verdadeiros nordestinos, aqueles do sertões ressequidos, terem acesso a educação e, por conseguinte, se fixarem em suas terras com as suas próprias pernas e com o trabalho digno que os liberte da miséria, do preconceito, da marginalidade social e da escravidão dos grandes centros urbanos, bem como das bolsas e de outros benefícios sociais alienantes e travestidos de cabrestos, resquícios dos currais eleitorais. A "elite" artística nordestina, contrastando com esse segmento social, está recheada de recursos públicos, que, ao contrário das verbas sociais, efetivamente chegam ao seu destino, tais quais as milionárias oriundas da Lei Rouanet.
    Longe de hipocrisias, não tenho preconceitos contra os meus "irmãos guerreiros nordestinos", mas sim, contra os políticos, digo, politiqueiros picaretas que fazem desse quadro de miséria um verdadeiro palanque para praticarem estelionatos eleitorais, desvio de verbas sociais, etc., para se perpetuarem no mundo das benesses públicas. Creio que quem dá a conotação preconceituosa ao termo "nordestino" são os próprios políticos nordestinos, que colocam esse tema na pauta dos palanques visando apenas votos, assim como os seus pares exploram os preconceitos ou as diferenças de classe ou de raça como estratégia político-eleitoreira, conscientes dos potenciais movimentos e conflitos sociais que daí podem emergir, tipo "cala a boca nordestino", mas que, por outro lado, desviam do foco os potenciais movimentos, que efetivamente deveriam mobilizar as classes, dentre eles, os que combatem a corrupção e outros descalabros por eles praticados.

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  4. Tudo é relativo, pois lá de cima, saiu tambem uma praga chamada LULA

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    1. Mas essa praga nem é citada no texto. O nome deste infeliz só iria manchar a história de vida dos Nomes dos Nordestinos Honrados citados nesse belíssimo texto.

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