15 janeiro, 2015

A 'inelutável' marcha da modernidade

Vou continuar na última prova da Fuvest, para analisar uma questão baseada neste trecho de um texto de Cláudia Antunes (revista "Piauí"): "Os adultos de amanhã se lembrarão dele tanto quanto os de hoje se recordam dos leiteiros, profetizou o blog de assuntos metropolitanos do jornal 'Toronto Star', conformado à marcha inelutável da modernidade tecnológica". Sabe a quem se refere o texto, caro leitor? Ao carteiro, cuja "extinção" foi anunciada pelo "Canada Post". 

Eis o enunciado: "Sem alterar o sentido, reescreva o trecho 'conformado à marcha inelutável da modernidade tecnológica' substituindo 'conformado' por um sinônimo e o adjetivo 'inelutável' pelo verbo 'lutar', fazendo as modificações necessárias".
Para "ajudar" o candidato, a banca deu um exemplo, assim apresentado: "Exemplo: marcha inevitável da modernidade tecnológica = marcha da modernidade tecnológica que não se pode evitar". 

É imperativo dizer que, em rigor, o exemplo da banca peca pela falta de precisão. Nele, o que é que não se pode evitar? A marcha ou a modernidade tecnológica? A banca alterou o sentido quando trocou "inevitável" pelo verbo "evitar"... 

Qual era o pulo do gato que a Fuvest queria que o candidato captasse? Note que, com o exemplo dado, a Fuvest "piorou" a vida do candidato. Explico: o verbo "evitar" não rege preposição (se alguém evita, evita alguma coisa ou alguém). E "lutar"?
Se lembrarmos que "inelutável" significa "contra o que não se pode lutar", logo veremos que a banca cobrou o uso do pronome relativo precedido de preposição... 


Em outras palavras, o aluno tinha de usar a preposição "contra" em sua resposta, que poderia ser algo como "...marcha da modernidade tecnológica, contra a qual não se pode lutar" ou "contra a qual é impossível lutar". Quem colocou na resposta algo como "...marcha inelutável da modernidade tecnológica, que não se pode lutar" ou "...que não se pode lutar contra ela" certamente não se deu bem. 

Essas construções são mais que comuns na linguagem informal, assim como "A firma que eu trabalho", "O disco que eu mais gosto" ou "A rua que moramos", que, no padrão formal, passam a "A firma em que/na qual eu trabalho", "O disco de que/do qual mais gosto" e "A rua em que/na qual moramos". 

Uma terceira resposta que os candidatos poderiam ter dado (e que intencionalmente não citei) é algo como "...marcha da modernidade tecnológica, contra a qual não há como lutar". Em textos clássicos, essa construção encontra outra forma: "...marcha da modernidade tecnológica, contra a qual não há lutar" (sim, "contra a qual não há lutar"). Nenhum dos grandes cursos que divulgam cadernos de correção de vestibulares citou essa hipótese, que talvez não tenha sido empregada pelos candidatos, mas... 

Mas o que fazer com quem teve o "azar" de um dia ler "Os Sertões" e de lá encontrar a passagem "Não há contê-lo, então, no íntimo" (= "Não é possível contê-lo..." = "Não há como contê-lo...") e de se interessar pela construção e de encontrar resposta para isso em dicionários de regência ou de sinônimos? Espero que a banca tenha previsto essa forma e que a passe aos corretores. 

Cito outro exemplo, de ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade: "Os mortos passam rápidos, já não há pegá-los" (= "já não é possível pegá-los"). É isso.
inculta@uol.com.br
 
pasquale cipro neto Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa" e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de "Cotidiano".

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