19 fevereiro, 2015

Novo senhor

A bandeira com que o presidente da Câmara incita e pretende explicar a agitação da Casa contra o governo e o reformismo de costumes é, apenas, um rótulo inverdadeiro para um conteúdo com ingredientes tóxicos. 

E, no entanto, bem sucedido como ilusionismo, porque o governo não se recuperou do seu pasmo e os demais alvos de Eduardo Cunha nem se deram conta do que os espera. 

A ideia difundida pelo deputado é de que a Câmara afinal assume a sua parte na independência dos Três Poderes, como determinado pela Constituição. Essa retardatária atitude estaria expressa na insurgência com que o PMDB e evangélicos, componentes da bancada governista, levaram o plenário a derrotar posições do governo. 

E preparam-se para uma sucessão já programada de outras derrotas impostas. Mas o que tem isso a ver com independência da Câmara? 

O PMDB e parlamentares evangélicos apoiavam o governo porque é próprio de partidos e blocos, nas casas parlamentares, apoiarem governos. E deixaram de apoiá-lo porque é próprio de blocos e partidos, sobretudo os que se orientam pela busca de vantagens como o PMDB, mudarem de posição. 

Para uma aproximação da ideia propagada com êxito por Eduardo Cunha, seria possível falar, aí sim, na independência de escolha do PMDB. Se reconhecido que nem isso seria novo: os 30 anos de adesismo peemedebista também foram escolha independente. 

A adotar-se o argumento de Eduardo Cunha, já seria possível dizer que a Câmara rebelde só mudou de senhor. A subserviência com que deputados e bancadas, inclusive de adversários como o DEM, põem-se a serviço dele, não é menor nem menos fisiológica do que se via na Câmara, em outro sentido. De graça, agora? 

São convicções adquiridas por cargos na Câmara, gabinetes e, acima de tudo, dinheiro para as campanhas e participação no rateio de votos do eleitorado evangélico, por influência de Eduardo Cunha. 

A Câmara estava e continua como Poder independente, sem cerceamento algum. A maioria dos seus integrantes, não. 

CIFRÕES
 
Ainda Eduardo Cunha, que é mesmo a figura da moda. Seu artigo na Folha (15/2) responde, embora de modo indireto, à falta de explicação para sua ida aos governadores, mais que aos deputados, na campanha para presidir a Câmara. 

Suas metas não param no bloqueio ao aborto e no fim do casamento. 

Sob o rótulo de "discussão do pacto federativo", há a mudança na divisão, entre governo federal e estaduais, do arrecadado com impostos e outras obrigações. Os governadores empurram suas bancadas. 

JULGAMENTO
  
O conceito que o ex-ministro Joaquim Barbosa divulga da magistratura brasileira, incluída a que praticou no Supremo, é bem ruinzinho. 

Se juízes não devem receber advogados, porque são procurados com a intenção de corrompê-los, está implícita a dupla afirmação de que os advogados são corruptores e os juízes correm risco diante deles. Fosse assim, estaríamos melhor sem advogados e sem juízes. 

AVISO
 
Esta coluna deixa de sair (ei, palmas por quê? não acabei a frase) nas próximas semanas.



janio de freitas Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos, terças e quintas-feiras.

FOLHA


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