27 junho, 2016

Ex-bancário, Paulo Bernardo foi da glória ao isolamento


petrolão

Poucos anos atrás, quando o governo do presidente Lula (PT) surfava em nível recorde de popularidade, o então ministro Paulo Bernardo e sua mulher, a senadora Gleisi Hoffmann (PT), tinham agenda cheia aos fins de semana no Paraná, base eleitoral do casal. 


"Eles eram convidados para casamentos, batizados, para qualquer coisa", lembra um colega de partido. "O Paulo foi homenageado até no Country Club". 


Os últimos meses foram diferentes. Afastado no início do ano do cargo de ministro, indiciado na Operação Lava Jato e, enfim, preso preventivamente nesta quinta-feira (23), Bernardo aproveitava o tempo livre para fazer uma das coisas que mais gosta: cozinhar. 


Franklin de Freitas - 31.out.10/Folhapress
O ex-ministro Paulo Bernardo e sua mulher, a senadora Gleisi Hoffmann, em 2010
O ex-ministro Paulo Bernardo e sua mulher, a senadora Gleisi Hoffmann, em 2010

Na era Lula, o ex-ministro se tornou como o principal articulador político do PT no Paraná. À frente da pasta do Planejamento entre 2005 e 2010, e com o orçamento federal na mão, aproximou-se de prefeitos e deputados. 


Ganhou o cacife político que não tinha como deputado federal. 


Apesar de eleito para três mandatos, Paulo Bernardo era mais conhecido apenas em sua base eleitoral, o Norte do Paraná, para onde se mudou em 1982. Transferido pelo Banco do Brasil para Londrina, ele iniciou carreira no sindicalismo, dirigindo o Sindicato dos Bancários da cidade. Filiou-se ao PT dois anos depois. 


Sua ascendência em um governo com recorde de popularidade o tornou convidado de honra em eventos da Federação das Indústrias do Paraná, de membros do agronegócio e, claro, do PT. 


DOBRADINHA

Com a mulher, Bernardo construiu uma parceria política. Em 1999, ela o acompanhou para ser secretária de Estado no Mato Grosso do Sul, durante a gestão de Zeca do PT, em 1999 –ele assumiu a pasta da Fazenda. Também foi assim na Prefeitura de Londrina, entre 2001 e 2002, quando ambos foram secretários municipais. 


Em 2003, quando ele voltou à Câmara Federal e ela assumiu a diretoria financeira de Itaipu, as carreiras do casal descolaram –mas a parceria permaneceu. 


Bernardo era um dos principais articuladores das campanhas de Gleisi, mantendo contato com empresários, prefeitos e deputados. Para alguns, o ex-ministro era o "caixa" da petista. 


Embora parte da militância torcesse o nariz para o casal, havia a expectativa de que Gleisi e Paulo Bernardo conseguissem conquistar o eleitor do Paraná, historicamente avesso ao PT. 


Porém, com a rejeição ao governo de Dilma Rousseff e as denúncias de envolvimento do PT com corrupção, o plano foi abaixo. A votação de Gleisi caiu de 2,2 milhões de votos em 2006, quando concorreu ao Senado, para 881 mil na sua última campanha ao governo, em 2014. 


ISOLAMENTO

Desgastados pelo que chamam de "campanha de desconstrução contra o PT", o casal diminuiu as aparições públicas no Paraná desde então. 


Recentemente, a senadora chegou a ser hostilizada ao desembarcar no aeroporto de Curitiba, por manifestantes que a chamaram de "corrupta", "sem vergonha" e "ladrona". Em maio, ela e Bernardo foram denunciados ao STF (Supremo Tribunal Federal) sob acusação de corrupção. Eles sempre negaram irregularidades e dizem que as denúncias são "inverossímeis" e "especulativas". 


Pouco antes da última eleição, os dois compraram um apartamento de fundos num condomínio discreto, porém confortável, num bairro residencial de Curitiba. 


Com jardim interno, piscina, playground e outras comodidades, o imóvel foi declarado à Justiça Eleitoral por R$ 1,1 milhão. Foi lá que policiais cumpriram ordem de busca e apreensão na manhã desta quinta. 


O PT do Paraná ainda não se posicionou sobre a prisão do ex-ministro. 

Já a senadora Gleisi, em sua página no Facebook, postou uma ilustração logo cedo, às 6h, com uma frase do escritor uruguaio Eduardo Galeano: "Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre".

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