16 outubro, 2014

Dilma teria de ter demitido toda a diretoria da Petrobras, diz Cunha

A presidente Dilma Rousseff cometeu muitos erros políticos em seu governo e por essa razão sofre agora as consequências na campanha pela reeleição. Por exemplo, a petista teria de ter demitido a diretoria inteira da Petrobras quando começaram a surgir as acusações de corrupção dentro da estatal, diz o líder do PMDB na Câmara, deputado Eduardo Cunha, do Rio de Janeiro. Dá tempo ainda? "Agora é inócuo", responde ele.
Aos 56 anos e prestes a iniciar seu quarto mandato consecutivo de deputado, Cunha é pré-candidato a presidente da Câmara em 2015. Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha e do "UOL", ele afirmou que a eleição presidencial está muito "dura" para Dilma, que pareceu "nervosa" no debate da terça-feira (14) na TV Bandeirantes. Aécio Neves (PSDB) "estava mais à vontade".

O peemedebista acredita que em 2015 deve ser instalada uma nova CPI da Petrobras. A depender do andamento, devem ocorrer cassações de mandato de congressistas. Para a presidente, se reeleita, será um momento complicado. Se não mudar sua forma de fazer política, seu segundo governo "certamente será pior", avalia o deputado. "Pior e pode terminar bem mais isolada do que começou".
O possível futuro presidente da Câmara não esconde um certo ressentimento do PT e de Dilma, com quem sempre teve uma relação conflituosa. Para Cunha, o PT usou PMDB apenas "para um aluguel de tempo de TV". Foi humilhante? Ele responde que sim.
Se Aécio Neves for eleito presidente, o PMDB terá alterações no seu poder interno. Michel Temer, atual presidente nacional da legenda, "dificilmente terá condição política de conduzir" o eventual processo de realinhamento do partido ao governo tucano.
Outro assunto para 2015: a reação do Congresso quando o STF (Supremo Tribunal Federal) finalizar o julgamento que deve proibir a doação de empresas para partidos e políticos em campanha. Com o fim dessa modalidade de financiamento, Cunha prevê uma explosão do uso do caixa dois e imagina um desfecho eloquente: "Vamos mudar o Congresso para a Papuda". A Papuda é a penitenciária de Brasília.
Diferentemente do que estava sendo anunciado nos últimos dias, a bancada do PMDB não deve fazer uma manifestação pública de apoio à candidatura de Aécio Neves. Exceto manifestações individuais, diz Cunha, que estima uma divisão ao meio dos 66 deputados eleitos pela legenda –hoje, seriam 33 pró-Dilma e 33 a favor de Aécio.
A seguir, trechos da entrevista:
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Folha/UOL - O PMDB elegeu uma bancada de 66 deputados, agora em 2014, ou seja, 12 a menos do que há quatro anos. O que aconteceu? Eduardo Cunha - Se você retroagir mais, há oito anos, elegeu mais ainda. O PMDB vem perdendo, como todos os partidos.
O PT perdeu proporcionalmente mais deputados do que o PMDB. Nesta legislatura tivemos o fenômeno de criação de novos partidos que absorveram deputados. Você teve o PSD, o Solidariedade e teve o Pros. Esses partidos juntos levaram uma bancada maior do que o PMDB e o PT perderam.
Temos que discutir a reforma política de verdade. A criação desses partidos que buscaram levar tempo de televisão, viraram mercadoria para negociar apoio político, foram usados para fragmentar parte da base.
Além disso, temos também o fato de que as alianças feitas pelo PMDB acabaram tendo como consequência um pouco de perda de sua identidade.
Por exemplo?
As alianças. Nós mantivemos aliança com o PT.
Em 2006, o PMDB foi a maior bancada da Câmara dos Deputados quando correu solteiro. Já em 2010, quando nós fizemos a aliança, saímos como segunda bancada e mantivemos essa posição com menos deputados. Então temos que questionar se essa aliança foi boa ou não para o PMDB.
Reforma política com tudo de uma vez não vai sair nunca...
Nunca.
Se o sr. tivesse que escolher um item da reforma política, algo exequível, qual seria?
Nós temos que diminuir o número de partidos políticos. Esse é o primeiro ponto por cláusula de barreira. Cláusula de barreira é fundamental para que a gente possa diminuir o número de partidos.
Haverá clima para formar um consenso no novo Congresso a favor de uma cláusula de barreira, como o sr. chama? Afinal, muitos desses partidos teriam de votar contra si próprios...
A reforma política teria saído se não fosse a obsessão do PT pelo seu relator da reforma política, atual líder do governo, Henrique Fontana [deputado federal pelo PT do Rio Grande do Sul], que insistia em votar apenas financiamento público de campanha e votação em lista. Eles levaram à obstrução na hora que nós poderíamos ter votado algumas coisas.
Tempo de campanha, reduzir gastos, havia muitas coisas que poderiam ter sido feitas e foram impedidas porque o PT começou a querer discutir inclusive o plebiscito, que faz parte da campanha da presidente Dilma agora. Ela fala em plebiscito toda a hora como se a eleição não tivesse sido um plebiscito. Isso é um equívoco. O PMDB foi contra a ideia de plebiscito naquele momento.
Ainda é contra?
Sou contra, porque nós fomos eleitos para isso. Sou até a favor de um referendo, mas jamais um plebiscito. Porque senão eu vou entregar o nosso poder de representação.
Mas o sr. acha exequível aprovar uma cláusula de barreira?
Eu não disse que vamos ter o consenso para cláusula de barreira. Disse que haverá um consenso, sim, para que alguma coisa seja feita.
O que tem chance de passar?
Fim de coligação proporcional [nas eleições para deputados federais, por exemplo].
Acho que o fim da coligação proporcional terá chances de prosperar mesmo por lei.
A bancada do PMDB está dividida ao meio entre apoio a Aécio Neves e a Dilma Rousseff. É isso mesmo?
É exatamente isso.
O que acontece é que essa aliança [PT-PMDB] é contestada por muitos. Até pelo seu produto: o PMDB tem reduzido a sua bancada, pela forma como foi tratado no governo do PT, e por várias outras circunstâncias regionais. Ao mesmo tempo que a gente estava junto, na hora que foram discutir as alianças nos Estados em que o PMDB era muito forte, foi aniquilado pelo PT. O PT atrapalhou a eleição do PMDB, como foi o caso do meu Estado [Rio de Janeiro] –e o candidato do PT ficou como nanico, lá atrás, em quarto lugar na eleição.
O sr. está se referindo a Lindbergh Farias, que é senador pelo PT do Rio de Janeiro, foi candidato a governador do Rio e ficou agora em quarto lugar?
O Ceará é outro exemplo. O PMDB sempre marchou com o PT e tinha um candidato viável ao governo, o senador Eunício Oliveira, que agora está enfrentando o próprio PT.
Enfim, circunstâncias regionais acabaram fazendo com que uma parte do PMDB se decepcionasses com essa aliança. Nós aprovamos a aliança em convenção nacional porque não teria sentido tirar o vice-presidente da República a chance de disputar a sua reeleição. Mas fizemos entre todos nós um acordo tácito: aprovaríamos na convenção a aliança, mas aqueles que se sentissem desconfortáveis em continuar com essa aliança iriam votar em quem quisesse, e assim tem sido cumprido.
O PMDB, pela falta de um projeto nacional, passou a ser uma confederação de partidos regionais. Você tem vários PMDBs de acordo com o seu Estado. A realidade local acabou sempre preponderando sobre a realidade nacional. A lógica da decisão de parte da bancada do PMDB é em função do seu problema regional e não necessariamente pela sua visão do processo nacional.
A bancada de deputados do PMDB, ou uma ala da bancada, pretende fazer alguma manifestação pública a favor de algum candidato a presidente?
Não creio até porque, se a convenção nacional decidiu pelo apoio à candidatura da presidente Dilma, indicando vice, não tem sentido uma instância partidária menor querer tomar uma decisão contrária à convenção.
O que vai haver e está havendo são manifestações individuais daqueles que não estão seguindo aquilo que foi decidido na convenção, com autorização tácita da própria convenção, que é trabalhar para o candidato que entender ser o melhor.
O presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse que no Rio a presidente Dilma Rousseff subiria em vários palanques na disputa para o governo local. Foi uma decisão errada?
Absolutamente errada.
Aliás, nós tivemos dois grandes episódios que ajudaram a afastar o PMDB. O primeiro foi o entrevero que o próprio Rui Falcão teve comigo, quando me agrediu no Rio de Janeiro dentro do Sambódromo. Tive uma reação dura e houve uma briga enorme no Congresso Nacional. A partir daí, a relação PT e PMDB começou a se deteriorar. Depois, o outro episódio: ao construir o palanque do Rio de Janeiro, ele considerou uma lógica segundo a qual todo mundo estaria apoiando a presidente da República. Quando se viu o resultado das urnas, a presidente teve 36% dos votos do Rio de Janeiro. Ou seja, 64% não votaram nela. Então é preciso que a gente saiba que não há essa unanimidade, ou não havia essa unanimidade, era preciso que se construísse, como em todo processo eleitoral. É um processo de construção.
Não se pode ficar na arrogância de achar que todo mundo vai orbitar em função dela [presidente Dilma Rousseff], quando, na realidade, ela dependeria muito mais dos apoios que ela tinha no Rio de Janeiro.
No caso do Rio de Janeiro o sr. acha que o PT honrou a fama de ser fominha na hora de fazer alianças?
Sem dúvida. O PT sempre teve projeto hegemônico. Na realidade, se você conversasse e visse o que os petistas falavam, eles não estavam disputando as eleições dos governos estaduais, eles estavam disputando quem ia ser o sucessor da Dilma. Queriam formar novas lideranças nas eleições estaduais, assim como fizeram com [Fernando] Haddad em São Paulo –e aquilo acabou sendo um grande erro do PT, acabou prejudicando o PT em São Paulo de tal maneira que acabou com o seu candidato a governador, que ficou em 3º lugar, numa posição pífia, muito abaixo da média do PT em São Paulo.
No caso Rio de Janeiro, do seu ponto de vista, o ideal teria sido a direção nacional do PT interferir e impedir que Lindbergh fosse candidato?
Na verdade, não é nem interferir. Eles estimularam a candidatura do Lindbergh. Não houve uma interferência. Não se pediu interferência. Na realidade, o Lindbergh era um projeto do PT, isso ficou claro quando o próprio presidente Lula gravou.
Mas a presidente Dilma Rousseff nunca foi muito fã dessa ideia...
A presidente Dilma tem um comportamento e o PT tem outro. Isso sempre ficou claro e ficou claro também durante a campanha. Até concordo com você que pela preferência da Dilma teria sido a candidatura do [Luiz Fernando] Pezão, mas a preferência do PT foi por manter um projeto próprio, como foi em alguns lugares do país. Essa hegemonia do PT, essa ânsia de se obter mais espaço, é que fez com que o PT mostrasse para todos nós que o PT pensava nele e não num projeto conjunto de poder. Isso afastou ainda mais uma grande parte do PMDB. Eu diria que essa divisão hoje é um reflexo disso tudo.
A candidatura da presidente Dilma Rousseff tem um desempenho pior do que o PT e a própria presidente esperavam. Quais foram os erros cometidos para que se chegasse a essa situação atual?
Não acho que os erros tenham sido na campanha. Os erros foram no governo.
Por exemplo?
Faltou muita política no governo. Política não é só política com os políticos. As pessoas pensam que a política é atender cargo, favores, verbas para político. Política é conversar. Política com o povo. Política é articular. É política com empresários, políticas com segmentos.
O governo Dilma só começou a fazer política depois das manifestações de junho de 2013, e o fez durante um período até recuperar o índice de popularidade que havia caído vertiginosamente durante o período dos protestos. Depois que recuperou e iniciou o ano de 2014, voltou-se à arrogância no tratamento que se tinha antes das manifestações. Isso acabou culminando no processo das eleições, com reflexo na campanha. A campanha não pode refletir diferente daquilo que é o governo. E a campanha acaba acolhendo os erros da política de governo. A consequência é clara.
Essa arrogância que o sr. menciona nasce onde? Na própria presidente Dilma?
Não tenho condições que afirmar isso. Se é da presidente ou se é do partido ou é de um conjunto de fatores. Não quero ser arrogante a ponto de ser dono da verdade. Estou apenas fazendo uma especulação sobre a minha visão do fato.
Mas o que Dilma poderia ter feito?
Poderia ter tido um comportamento diferente. Talvez aquele comportamento que ela começou quando houve as manifestações. Se tivesse continuado daquela forma, poderia ter construído uma aliança em cima de bases mais sólidas. O que aconteceu, por exemplo, é que o PMDB tem a nítida sensação que não é partícipe de nada, nem da campanha eleitoral.
O PMDB foi apenas um aluguel de tempo de televisão. Na realidade eles contrataram o tempo de televisão do PMDB no primeiro turno e talvez a solidez de alguns palanques, mais nada.
Isso é humilhante para o PMDB?
Para o PMDB, é. Talvez essa é uma das razões que explique a posição em que o PMDB está nessa campanha: extremamente divido. Essa é a razão fundamental.
Se na campanha você já trata o partido que é seu aliado desse jeito, imagine como você vai tratá-lo depois que você obter o poder.
Isso significa que a relação PT-PMDB não vai ser das melhores com vitória ou derrota?
A vitória por si só legitima como representante da sociedade para conduzir o país quem ganhar. Nós temos que conviver. Se a presidente Dilma for legitimada pela população, significa que o que ela fez, o que ela pensa, está tendo aprovação da maioria da população. Nós teremos que nos render à vontade das urnas. Agora, nós vamos ter que discutir bem essa relação.
As chances de vitória de Dilma Rousseff são menores do que as de Aécio Neves?
Não tenho o dom da adivinhação.
Mas?
Acho que a campanha é muito curta no segundo turno. Os debates são decisivos. Teremos ainda mais três debates. Serão fundamentais, além dos programas eleitorais que vão se dar nesses dias quando a população vai prestar atenção sobre aquilo que vai acontecer.
Mas a candidatura de Aécio está mais robusta agora?
Diria que ele está num momento melhor, mas não necessariamente ganhou a eleição. Qualquer deslize, em qualquer debate...
No dia 14 de outubro, agora, terça-feira, a TV Bandeirantes fez o primeiro debate. Qual é a sua avaliação do desempenho de Dilma Rousseff e de Aécio Neves nesse primeiro debate do segundo turno?
Achei a presidente Dilma um pouco mais nervosa no debate do que o candidato Aécio. Achei ele mais à vontade, mas é muito difícil você avaliar. Ambos os lados têm virtudes nas suas colocações e têm defeitos também nas suas respostas.
Quem seria um presidente melhor para a política do Brasil? Aécio ou Dilma?
Seja quem for o presidente eleito –seja Dilma reeleita ou seja o Aécio eleito–, sabe que a política terá que ser feita diferente do que foi feita nos últimos tempos.
No início, bem no início de 2013, há quase dois anos, o sr. veio aqui e disse que a presidente Dilma Rousseff precisaria recompor o seu governo, numa reforma ministerial, e que deveria chamar o PMDB para repactuar a forma como era a relação entre PT e PMDB. Isso acabou não acontecendo.
Aconteceu para pior.
É um dos motivos da situação atual?
Sem dúvida. Não houve a repactuação. Quando houve a simples substituição [de ministros] acabou havendo uma ruptura.
Parte do PMDB rompeu naquele momento com a participação no governo. Ficou bem claro e nítido que o governo era um governo deles. A presidente nomeou quem ela quis para os ministérios –e ela está na sua prorrogativa. Só que o PMDB, pelo menos uma parte do PMDB, não quis participar e acabou se conduzindo melhor num momento que tomou uma decisão de atuar com independência.
Se Aécio Neves for eleito presidente, como vai ser a relação do PMDB com o Planalto?
Temos 66 deputados eleitos do PMDB na legislatura próxima: 33 hoje defendem a candidatura do Aécio, 33 defendem a candidatura da Dilma. Qualquer um dos dois que for eleito parte de 33. Então é uma questão de ver qual vai ser o comportamento deles com relação ao PMDB.
Como vai se mover o PMDB num eventual governo Aécio Neves?
Não sei dizer neste momento. A gente precisa depois da eleição discutir esse processo partidário. O PMDB, certamente, vai entrar em uma longa discussão interna depois das eleições. Se ganhar a eleição a presidente Dilma, o PMDB, tendo feito parte da chapa, terá um tipo de comportamento. Se perder, certamente terá outro tipo de comportamento.
Qual será esse outro comportamento?
É um comportamento de debater internamente as decisões que foram tomadas e que nos levaram a uma aliança que acabou sendo derrotada do ponto de vista o PMDB.
O vice-presidente da República, Michel Temer, já disse que o PMDB ficaria fora do governo no início de uma eventual administração de Aécio Neves. É isso mesmo?
Se a aliança que do PMDB fracassar, certamente aqueles que levaram a aliança sairão derrotados do processo. Dificilmente serão eles que vão conduzir a discussão. Então, é preciso que isso fique muito claro. É claro que o vice-presidente, Michel Temer, que é o presidente do PMDB, na medida em que perca a candidatura à reeleição, dificilmente terá condição política de conduzir uma participação no governo [de Aécio Neves]. Mas também não terá condição dentro do PMDB de levar o PMDB para a oposição se a bancada está dividida, está rachada; se dentro dos Estados os apoios políticos estão rachados
É uma discussão um pouco maior do que simplesmente dizer que o PMDB será oposição ou que o PMDB será governo.
Essa discussão inclui o debate a respeito das presidências do Senado e da Câmara?
Temos dois cenários.
No caso do Senado, é regimental que a maior bancada indique o cargo de presidente. Então cabe ao PMDB, por ser a maior bancada, indicar a candidatura à Presidência do Senado.
Na Câmara não é assim. A Câmara é uma conjunção de fatores. É preciso primeiro que se defina a sucessão presidencial para ver o que vai acontecer a partir daí. Qualquer gesto agora seria prematuro. Não tem condição nenhuma. As maiorias vão ser formar ao sabor das candidaturas que forem vitoriosas.
Mas o PMDB hoje comanda a Câmara...
PMDB comanda a Casa.
Dia 1º de fevereiro, há um fato concreto.
Há a eleição.
O PMDB vai pleitear esse cargo?
Não tenho condição de afirmar isso agora.
O sr., que é líder do PMDB, deseja ser o candidato do PMDB a presidente da Câmara?
É muito difícil falar do assunto. Não existe candidatura de si mesmo. Ninguém pode ser candidato por vontade própria. Ou você representa um projeto político de um grupo, de um partido, ou você necessariamente passa a exercer uma ambição pessoal. Jamais passa pela minha cabeça exercer qualquer tipo de ambição pessoal.
Hoje, almejo continuar como líder da bancada do PMDB. O resto será consequência do processo político. Se a minha bancada se entender, se a minha bancada quiser fazer qualquer tipo de debate, ou qualquer tipo de disputa, será uma consequência do processo e não a causa.
Vai chegar ao Congresso, no ano que vem, o conteúdo da operação Lava Jato, que tem dezenas de congressistas citados. Qual impacto terá?
Acho que vai ser um impacto enorme. Não sei se chegará até 1° de fevereiro. Pode vazar antes.
Certamente o novo Congresso vai começar a legislatura com uma nova CPI. Acho isso inevitável. Acabará acontecendo até para dar continuidade a um processo que foi abruptamente interrompido. A tendência é que tenhamos um processo duro, de estresse.
Pelo que é conhecido até agora, haverá renúncias ou cassações de mandatos?
Depende se o conteúdo é verdadeiro.
Mas o que o sr. acha?
Depende se houver comprovação. Tem que se tomar um pouco de cuidado. Não há dúvida nenhuma que havia um esquema de corrupção muito forte dentro da Petrobras. Ninguém vai desmentir porque é público e notório.
É evidente que esse esquema de corrupção está sendo desvendado pelo processo da delação premiada daqueles que estão fazendo nesse momento ou que já fizeram, e é evidente que no bojo dessas delações deve haver fatos reais, comprovados e verdadeiros, e deve haver ilações políticas.
Primeiro, tem que separar o que são os fatos reais e verdadeiros das ilações políticas. Não deixar que o processo de delação seja usado para que seja exercidas vinganças. Separado isso, aquele que efetivamente estiver envolvido em fatos verdadeiros poderá acabar em cassação, sim, sem dúvida nenhuma. Poderá acabar em vários tipos de processo. Então eu não tenho dúvida que o ano de 2015 vai ser dominado por um processo de depuração da Petrobras, que, aliás, já deveria ter sido feita pela própria presidente da República, até para não deixar dúvidas. Eu, se fosse o presidente da República, teria demitido todos da diretoria da Petrobras. Teria limpado....
A presidente da Petrobras, inclusive?
Inclusive. Porque ela fez parte da diretoria em conjunto com outros. Não estou dizendo que ela tenha culpa de nada não, até acho que possa não ter, mas o processo de faxina que foi iniciado pela própria presidente da República no início do seu governo, melhor momento que ela tinha para fazê-lo era agora.
Mas agora no meio da eleição?
Não digo agora. Agora, eu digo, nesse processo final, quando houve a delação premiada, quando ficou claro que havia um esquema de corrupção na Petrobras: afasta todo mundo, coloca uma diretoria nova. Seria uma forma de dar uma resposta à sociedade que não havia qualquer tipo de conivência. Depois de tudo efetivamente apurado, conhecidos os detalhes e visto aqueles que são inocentes, poderiam ir até para outros cargos do governo. Não é execrar pessoas sem que tenham culpa. Não estou pedindo isso. Mas, efetivamente a falta de ação na Petrobras é um dos fatores das dificuldades da candidatura da reeleição.
Mas a falta de ação o sr. está atribuindo à presidente Dilma, porque cabe a ela, não é?
Sem dúvida. Ao governo.
Porque o sr. acha que ela relutou em fazer isso?
Não sei. Não tenho condições de te dizer.
Mas ela errou ao não fazer?
Na minha opinião, politicamente, ela errou. Não estou dizendo que ela errou como erro de conduta. Acho que foi um erro político. Como ela entende como séria a presidente da Petrobras, não quis fazê-lo para não macular a carreira de alguém que ela entende que não tem culpa no processo. Em nome disso ela acabou prejudicando todo um contexto de avaliação da sociedade sobre a forma de combate à corrupção.
Mas o sr. acha que lá para maio, se a presidente da República tivesse demitido a diretoria inteira da Petrobras o escândalo não poderia crescer ainda mais?
Não sei... O diretor financeiro da Petrobras é o mesmo desde a época de [Sergio] Gabrielli. Continua lá. O outro diretor que está no lugar do Paulo Roberto, era gerente do Paulo Roberto. Então o sistema, de uma certa forma, está viciado. Era preciso que se desse uma limpa, que se trouxesse talvez um grande empresário para presidir a Petrobras, um [Jorge] Gerdau da vida. Alguém que fosse fora de qualquer contexto político. Você teria uma forma de dizer o seguinte: vamos dar uma mudança nisso aqui. Ninguém está pedindo para macular a honra de quem quer que seja. Não estou aqui acusando a presidente da Petrobras de ter tido qualquer tipo de participação. Até que acredito que não tenha. Estou falando mais do ponto de vista político, de mostrar à sociedade que você não está compactuando. É nítido que há um esquema viciado dentro da Petrobras. E esse é um dos fatores que leva a candidatura da presidente Dilma a ter dificuldades. Então, consequentemente, se você tivesse agido preventivamente, esse tema teria saído do debate da eleição.
Mas agora...
Não, agora...
Já era, não é?
Agora é inócuo.
Agora não haveria mais como fazer?
Pode até gerar a visão que foi oportunista.
Se a presidente Dilma for reeleita, o sr. acha as investigações da Operação Lava Jato podem chegar até ela a ponto de alguém sugerir um processo de impeachment?
Como tudo e qualquer restrição que a gente possa ter ao comportamento político da presidente da República, não há nenhum indício de que a presidente seja conivente com favorecimentos ou com irregularidades. Acho que a presidente é uma pessoa correta, do ponto de vista pessoal, e sempre buscou o melhor para a coisa pública.
Acho que o erro dela é político. Então dificilmente mesmo, com o maior dos escândalos que possam chegar, a única conclusão que você vai chegar é que a presidente ou foi enganada ou não teve a visão daquilo que realmente acontecia debaixo da sua gestão.
Mas ela ficaria enfraquecida com esse escândalo borbulhando dentro do Congresso?
Vai ficar enfraquecida do ponto de vista de gestora. De ter sido presidente do conselho da Petrobras e algum esquema de corrupção ter prosperado e ela não ter tido a capacidade de agir para tentar fazer alguma coisa. Só. Fora disso, não vejo da presidente nenhum tipo de sinal de qualquer tipo de envolvimento dela.
Um segundo mandato de Dilma será pior ou melhor?
Depende dela. Do seu comportamento.
E da conjuntura?
O Lula, quando teve o segundo mandato, buscou ser melhor do que o primeiro mandato. Buscou construir um país pacificado em crescimento econômico, buscando reeleger o seu sucessor, e teve sucesso. Ele aumentou o seu arco de alianças.
Já a presidente Dilma não, ela está diminuindo o seu arco. Essa é uma grande diferença entre os dois.
Se ela continuar como está?
Certamente será pior. Se ela tiver a grandiosidade de buscar uma pacificação do país, buscar corrigir os erros que possam ter sido cometidos no primeiro mandato, com sinceridade, ela pode fazer um bom segundo mandato.
E se continuar fazendo política como vem fazendo até agora, faria um segundo mandato pior?
Pior e pode terminar bem mais isolada do que começou.
Na terça-feira (14) desta semana, a Polícia Civil do Rio deflagrou uma operação para prender médicos envolvidos na prática do aborto. O sr. é contra a flexibilização da lei atual que permite aborto em alguns casos muito específicos. Mas as pessoas que têm dinheiro acabam indo a clínicas e fazem aborto com mais segurança. Pessoas com menos recursos ficam submetidas a clínicas ou a médicos menos escrupulosos. Como resolver isso?
Em primeiro lugar, ambos estão cometendo crime. Uns com mais segurança; outros com menos segurança. O aborto é crime.
Mas...
Na realidade, estão cometendo um assassinato. A grande discussão que você tem é onde começa a vida. Na nossa visão, a vida começa na concepção. Não começa quando nasce a criança. Quem está cometendo aborto sabe que está assassinando um feto, que é um feto que tem vida.
Acho que nós temos que fazer uma coisa mais radical. Eu tenho até um projeto para isso, que é punir com mais rigor o médico que pratica o aborto. Eu ouvi a declaração ontem (14) da Polícia Civil, à tarde, quando o policial disse o seguinte: "Aquilo era um açougue, eram açougueiros". Não se pode permitir que um médico desses, que se preste a esse papel, não tenha uma punição de crime hediondo.
Mas deputado, isso existe há décadas. Talvez há séculos.
Como existe, as pessoas consumirem drogas, há séculos.
Pois é.
Como existe, as pessoas praticando atos irregulares como corrupção há séculos, não é porque crimes são praticados há séculos que vou legitimá-lo.
O sr. compara a corrupção a aborto e ao uso de drogas.
Eu comparo corrupção a aborto. Igualzinho. Acho que é um crime tão hediondo quanto. Acho que você matar uma vida, ceifar uma vida, você está fazendo um crime. É tão pernicioso, tão ruim como a corrupção.
Muitos países já flexibilizaram essa regra. Tem uma onda no mundo nesse sentido.
Como tem liberação de drogas.
A respeito de drogas também. O sr. acha que o Brasil vai resistir nessa posição atual, para sempre, ou o sr. acha que em algum momento vai acabar capitulando?
A população, na sua maioria, por várias pesquisas que eu já vi, é contra o aborto. Enquanto a população for na sua maioria contra o aborto dificilmente isso vai mudar.
A população também é a favor às vezes da pena de morte...
Não vejo esse percentual desse jeito. Também sou contra a pena de morte pelo princípio de que não cabe a gente ceifar a vida de ninguém.
Dificilmente um projeto que legalize o aborto passará no Congresso Nacional.
Um tema da reforma política será tratado pelo Congresso no ano que vem: o financiamento de campanha. O Supremo Tribunal Federal já formou maioria numa ação que vai acabar resultando na proibição do financiamento de campanha por parte de pessoas jurídicas, de empresas. Como o Congresso deve reagir?
A decisão do Supremo vai implicar necessariamente que você tenha uma deliberação.
Se o Supremo vetar o uso de dinheiro de empresas no financiamento de campanhas eleitorais e mantiver o mesmo nível de campanha que tem hoje, você vai provocar uma enxurrada de caixa 2 nas campanhas eleitorais.
É o que dizem.
O que vai acabar acontecendo é que nós vamos mudar o Congresso para a Papuda [penitenciária de Brasília], porque vai ser uma circunstância absurda. Não tem condição nenhuma de fazer a campanha eleitoral do jeito que está com financiamento de pessoas físicas. Você vai ter que mudar a regra, diminuir o custo de campanha.
Qual é a regra que o sr. propõe que talvez possa ser aprovada lá no Plenário?
Se você quiser manter financiamento de pessoas físicas, você vai ter que reduzir a campanha para 30 dias, você vai ter que reduzir a televisão para 15 dias.
Então, se o Supremo for adiante...
...Haverá uma reação no Congresso.
E qual será?
Sou favorável a que se tenha o financiamento privado, que possa ser de empresas.
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A seguir, os vídeos da entrevista (rodam em smartphones e tablets, com opção de assistir em HD):











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