02 setembro, 2014

Campanha de Dilma entra na fase do vale-tudo

Na semana passada, o comitê eleitoral de Dilma Rousseff usou o horário eleitoral para fazer terrorismo político. Levou ao ar peças que associavam a eventual vitória de Marina Silva à “incerteza de uma aventura”. Nesta terça, a campanha da ex-favorita esclarece que a tática do medo não era um ponto fora da curva.

Em nova investida, o marqueteiro João Santana vincula Marina aos desastres Jânio Quadros e Fernando Collor. Faz isso poucos dias depois de exibir Lula dizendo o seguinte: “Na minha primeira campanha, a esperança venceu o medo e nesta da Dilma, a verdade vai vencer a mentira.”

O que assusta nessa marcha resoluta da campanha de Dilma rumo à empulhação não é a sua crueza. Se a passagem do PT pelo poder ensinou alguma coisa é a não esperar nenhuma hesitação altruísta da ex-esquerda. Em nome da preservação de bocas e privilégios seus representantes costumam adotar a moral da sobrevivência. Que é muito parecida com a moral da selva.

Assustadora na rendição da campanha de Dilma ao vale-tudo é a escassa resistência que encontrou. A falta de estrutura partidária é mesmo um calcanhar de vidro de Marina. É necessário que a substituta de Eduardo Campos seja instada a dizer como pretende governar. Porém, como fenômeno político, Marina se parece mais com o Lula-2002 do que com o Collor-1989.

Curiosamente, Marina virou Collor na propaganda de Dilma com a aprovação de Lula, com quem a candidata se reuniu na noite de segunda-feira. O mesmo Lula que, em 1989, foi acusado por Collor, num debate televisivo, de defender “teses marxistas”. “Ele defende abertamente a luta armada”, atacou Collor, “Ele defende a invasão de terras, ele defende a invasão de casas e apartamentos…”

Numa disputa marcada pelo sonho da mudança, a propaganda de Dilma rende-se ao pesadelo da manutenção do hiper-pragmatismo: “Duas vezes em sua história, o Brasil elegeu salvadores da pátria, chefes do partido do eu sozinho'', diz um locutor na fatídica peça. Saltam na tela imagens de Jânio e a manchete sobre o impeachment de Collor.

O locutor arremata: “A gente sabe como isso acabou. Sonhar é bom, mas eleição é hora de botar o pé no chão e voltar à realidade.'' De fato, todo mundo sabe como terminou. Erro. A história não acabou. E a realidade não é animadora. Contando com o golpe de 64, que foi o desejo de mudança de muita gente, 2014 é a décima tentativa do Brasil de decidir que país deseja ser depois que crescer.

Começando a conta a partir de Juscelino, tivemos Jânio, o plebiscito que deu sobrevida a Jango, o golpe militar de 64, o malogro da mobilização pelas diretas, Tancredo e Sarney, Collor e PC Farias, Itamar e FHC e Lula. Nesse grande processo histórico, Dilma não chega a ser muita coisa. É uma reticência que parte do eleitorado vê como uma espécie de ressaca do período Lula.

Um período que, por ora, a gente sabe que, politicamente, acabou numa base congressual tão ampla que inclui Fernando Collor. Depois de aderir a Lula, Collor é, hoje, um feliz apoiador do governo Dilma. Pede votos para ela em Alagoas. Disputa a reeleição ao Senado com o apoio do ex-PT.

Quer dizer: Dilma pede à plateia que troque o sonho por uma realidade que inclui Collor, Sarney, Renan e um infindável etcétera. Ao criticar a esterilidade da política baseada nos bons sentimentos, Dilma e seu marqueteiro sugerem que o país se conforme com a política do possível. Nesse modelo, subverte-se a ética: o sonhador é que o egoísta, o intransigente com as más companhias é verdadeiro imoral. A que ponto chegaram Dilma, Lula e o ex-PT!

Um comentário:

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