01 março, 2015

Manifestantes protestam contra Dilma em frente ao Palácio da Cidade

Manifestantes anti-PT e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff fizeram um panelaço na rua que dá acesso ao Palácio da Cidade, em Botafogo, zona sul do Rio. 

O local é onde a presidente foi recebida pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, em ocasião dos 450 anos da cidade. 

O protesto, que começou por volta das 16h30, chegou, no auge do movimento, a reunir 31 pessoas. O ato foi convocado pela página do Movimento Brasil Livre no Facebook. 

As pessoas se posicionaram na rua que dá acesso ao palácio e recebiam apoio de alguns carros que passavam. Alguns metros antes do local, a Polícia do Exército e a Polícia Militar fizeram um bloqueio e só passavam convidados ou moradores locais. 

Pelo menos um convidado, que chegou à pé à cerimônia, fez sinais de apoio ao grupo: o poeta Ferreira Gullar. Abordado pela reportagem e questionado se apoiava o grupo que pedia o impeachment, limitou-se a dizer que sim. 

Integrantes do Movimento Brasil Livre disseram que são favoráveis à saída da presidente e de seu vice, Michel Temer, por acreditarem que os políticos têm ligação com as denúncias da operação Lava Jato, que apura desvios de dinheiro na Petrobras. 

Eles citam inclusive o parecer do jurista Ives Gandra publicado na Folha que sugeriu que Dilma teria que ser responsabilizada por uma suposta omissão no casa. 

O desejo maior é, contudo, a saída do PT do governo e que haja a convocação de novas eleições, ainda que não tenham apontado nenhum nome de preferência. 

"Está cada vez mais difícil a vida no Brasil, com os preços altos, os serviços públicos caros e difícil de conseguir empregos e estágios. O povo tá pagando o preço da corrupção do governo", disse o estudante de engenharia Pedro Souto, 21, do MBL. 

É o MBL um dos organizadores de protesto contra a presidente no próximo dia 15, de manhã em Copacabana. 

A advogada Lorraine Alves, 35, também integrante do MBL afirmou que o movimento no Rio não tem apoio de nenhum partido político. Ela pediu inclusive que empresários façam doações ao grupo para a aquisição de material para cartazes e a contratação de um carro de som. 

Questionada sobre o que achava do cenário hipotético de caso a presidente deixar o posto, mas permanecer seu vice, Michel Temer, na presidência, Alves disse acreditar que ele seria menos pior. 

"Pelo menos o PMDB não é filiado ao foro de São Paulo, um organismo comunista internacional, algo que é proibido pela nossa constituição, que não permite partidos se filiarem a entidades internacionais", disse. 

O técnico em segurança do trabalho Maycon Freitas, que administra a página UCC (União Contra a Corrupção) no Facebook, partilha da tese de que se os desvios na Petrobras ocorreram, eles tiveram o aval de Dilma, lembrando que ela era presidente do Conselho da empresa durante o período dos desvios. Freitas é um ativista conhecido no Rio. Ele chegou a se candidatar a deputado federal pelo PTdoB, mas teve apenas 2 mil votos e não se elegeu. 

Ele criticou a postura do governo petista na condução da greve dos caminhoneiros.

"O partido que apoiou a vida inteira as greves trata dessa forma o movimento dos caminhoneiros? Cadê a CUT, a UNE (União Nacional dos Estudantes), o MST para defender os caminhoneiros?", disse. 

Ele, que engrossou as fileiras dos que pediam intervenção militar no país, disse que mudou de ideia por não confiar "no alto escalão das Forças Armadas". 

"Eu acho que o impeachment é a via legal e democrática para tirar o governo que ai está. Não podemos aceitar que a chefe do país venha a público dizer que não sabia de nada", afirmou. 

Os manifestantes batiam panela e gritavam quando carros com símbolos oficiais passavam. Um deles, levava o ex-senador Francisco Dornelles (PP-RJ). 

O protesto teve a presença também do ativista que ficou conhecido como Batman das manifestações, devido à fantasia que usa. O ativista, que ficou famoso por se juntar nas manifestações de junho organizadas por anarquistas e militantes de esquerda, agora milita no movimento pró-impeachment. 

Não houve confusão durante o protesto, apenas um clima de hostilidade breve quando algum passageiro demonstrava apoio à presidente. 

Do outro lado da rua um grupo de cerca de dez pessoas observava e fotografava as pessoas no ato. Os manifestantes os acusavam de ser agentes do PT enviados para intimidar. A reportagem se aproximou e questionou sobre a presença deles ali e eles negaram ser militantes de qualquer um dos lados. 

A manifestação terminou às 18h15, antes de acabar a cerimônia no palácio.



'Ricos nutrem ódio ao PT e a Dilma', afirma ex-ministro

 O pacto nacional-popular articulado pelos governos do PT desmoronou pela falta de crescimento. Surgiu um fenômeno novo: o ódio político, o espírito golpista dos ricos. Para retomar o desenvolvimento, o país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores, setores da baixa classe média. Uma união contra rentistas, setor financeiro e estrangeiros. 


A visão é do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, 80, que está lançando "A Construção Política do Brasil", livro que percorre a história do país desde a independência. Ministro nos governos José Sarney e FHC, ele avalia que o ódio da burguesia ao PT decorre do fato de o governo defender os pobres. 


Adriano Vizoni/Folhapress
O economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, 80, que está lançando o livro "A Construção Política do Brasil"
O economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, 80, que está lançando o livro "A Construção Política do Brasil"
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Folha - Seu livro trata de coalizões de classe. O sr. diz que atualmente a coalização não é "liberal-dependente", como nos anos 1990, nem "nacional-popular", como no tempo de Getúlio Vargas. Qual é, então?

 
Bresser-Pereira - Não há. Desde 1930 houve cinco pactos políticos. O nacional-popular de Getúlio, de 1930 a 1960. De 1964 ou 1967 até 1977, há um pacto autoritário, modernizante e concentrador de renda, de Roberto Campos e dos militares. 


Depois, há o pacto democrático-popular de 77, que vai promover a transição. Esse chega ao governo, tenta resolver o problema da inflação e fracassa. Com Collor e, especialmente com FHC, há um pacto liberal-dependente, que fracassa novamente. 


Aí vem o Lula, que se propõe a formar novamente um pacto nacional-popular, com empresários industriais, trabalhadores, setores da burocracia pública e da classe média baixa. O governo terminou de forma quase triunfal, com crescimento de 7,4%, e prestígio internacional muito grande. Mas esse pacto desmoronou nos dois últimos anos do governo Dilma. 


Por quê?

O motivo principal foi que o desenvolvimento não veio. De repente, voltamos a crescer 1%. Houve erros nos preços da Petrobras e na energia elétrica. E o mensalão. Aí os economistas liberais começaram a falar forte e bravos novamente, pregar abertura comercial absoluta, dizer que empresários brasileiros são todos incompetentes e altamente protegidos, quando eles têm uma desvantagem competitiva imensa. 


É o que explica o desparecimento de centenas de milhares de empresas. O pacto político nacional-popular... Vupt! Evaporou-se. A burguesia voltou a se unificar. 


E achou que podia ganhar a eleição do ano passado?

Sim. Aí surgiu um fenômeno que eu nunca tinha visto no Brasil. De repente, vi um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, contra um partido e uma presidente. Não era preocupação ou medo. Era ódio. 


Esse ódio decorreu do fato de se ter um governo, pela primeira vez, que é de centro-

esquerda e que se conservou de esquerda. Fez compromissos, mas não se entregou. 

Continua defendendo os pobres contra os ricos. O ódio decorre do fato de que o governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas. 


Mas os rentistas tiveram bons ganhos com Lula e Dilma, não?

Não. Com Dilma, a taxa de juros tinha caído para 2%. Isso, mais o mau resultado econômico, a inflação e o mensalão, articularam a direita. Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia que está infeliz. 


Ao ganhar, Dilma adotou o programa dos conservadores?

Isso é uma confusão muito grande. Quando se precisa fazer o ajuste fiscal vira ortodoxo? Não faz sentido. Quando Dilma faz ajuste ela não está sendo ortodoxa. Está fazendo o que tem que fazer. Havia abusos nas vantagens da previdência. Subsídios e isenções foram equívocos. Nada mais desenvolvimentista do que tirar isso e reestabelecer as finanças. Em vez de dar incentivo, tem que dar é câmbio. E de forma sustentada. 


Dilma chamou [o ministro da Fazenda] Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição, muito antidemocraticamente não aceitaram isso e continuaram de armas em punho. De repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo. Não há chance disso funcionar. 


Dilma está na direção certa?

Claro. Mas não vai se resolver nada enquanto os brasileiros não se derem conta de que há um problema estrutural, a doença holandesa. Enquanto houver política de controle da inflação por meio de câmbio e política de crescimento com poupança externa e âncora cambial, não há santo que faça o país crescer. Juros altos só se justificam pelo poder dos rentistas e do sistema financeiro. Falar em taxa alta para controlar inflação não tem sentido. 


Qual pacto seria necessário?

Um pacto desenvolvimentista que una trabalhadores, empresários do setor produtivo, burocracia pública e amplos setores da baixa classe média. Contra quem? Os capitalistas rentistas, os financistas que administram seus negócios, os 80% dos economistas pagos pelo setor financeiro e os estrangeiros. 


Um pacto assim não fere interesses consolidados?

Em primeiro lugar, fere interesses do capitalismo. Não há nada que o capitalismo internacional queira mais em relação aos países em desenvolvimento do que eles apresentem déficit em conta-corrente. Porque esses déficits vão justificar a ocupação do mercado interno nosso pelas multinacionais deles e pelos empréstimos deles. Que não nos interessam em nada. O Brasil está voltando a ser um país primário-exportador. Esse câmbio alto resultou numa desindustrialização brutal. 


No livro o sr. trata das dubiedades da burguesia. Diz que muitos industriais são hoje quase "maquiladores". Viraram rentistas. Como compor esse pacto com empresários?

A burguesia tem sido ambígua, contraditória. Em alguns momentos se uniu a trabalhadores e ao governo para uma política de desenvolvimento nacional, como com Vargas e Juscelino. Em outros, não foi nacional, como entre 1960 e 1964. Ali, a burguesia se sentiu ameaçada. No contexto da Guerra Fria e da Revolução Cubana, se uniu e viabilizou o regime militar.

Estamos vendo isso novamente. A burguesia voltou a se a unir sob o comando liberal. Há esse clima de ódio, essa insistência de falar de impeachment. 


Mas esse espírito não vai florescer. A democracia está consolidada e todos ganham com ela, ricos e pobres. O Brasil só se desenvolve quando tem uma estratégia nacional de desenvolvimento. 


Como define a burguesia hoje?

É muito mais fraca do que nos anos 1950. Tudo foi comprado pelas multinacionais. O processo de desnacionalização é profundo. Todos que venderam suas empresas viraram rentistas, estão do outro lado. Mas continuam existindo empresários nacionais e jovens com ideias. Mas não há oportunidade de investir com esse câmbio e esse juro. É uma violência que se está fazendo contra o país. Em nome de uma subordinação da nação aos estrangeiros e de uma preferência muito forte pelo consumo imediato. 


Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de seu desenvolvimento, crítica do imperialismo. Incapazes de fazer a crítica dos déficits em conta-corrente, do processo de entrega de boa parte do nosso excedente para estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não-nação. 


Por que isso aconteceu?

Começamos a perder a ideia de nação no regime militar. Porque os militares se identificaram com o nacionalismo e o desenvolvimentismo. Os intelectuais brasileiros aderiram à teoria da dependência associada e abandonaram a ideia de burguesia nacional e de nação. Porque não há nação em burguesia nacional. A nação é uma coalizão entre a burguesia nacional e os trabalhadores com o governo. Depois foi a crise da dívida externa e o fracasso do Cruzado. Nos anos 1980, o mundo foi dominado pelo neoliberalismo. Quando veio Lula, ele começou a pensar na era Vargas. Isso fracassou. Não foi possível fazer essa reconstrução da nação. 


O sr. escreve que Lula foi fortemente social e hesitantemente desenvolvimentista

O desenvolvimentismo não deu certo. Sua política não foi a do novo desenvolvimentista [sobre a qual Bresser-Pereira teorizou]. 


Desnacionalização preocupa?

Profundamente. É uma tragédia. Vejo uma quantidade infinita de áreas dominadas por empresas multinacionais que não estão trazendo nenhuma tecnologia, nada. Simplesmente compram empresas nacionais e estão mandando belos lucros e dividendos para lá. Isso enfraquece profundamente a classe empresarial brasileira e, assim, a nação. 


Então o senhor está pessimista em relação à burguesia?

A burguesia brasileira está sendo um cordeiro nas mãos do carrasco. O carrasco é o juro alto e o câmbio apreciado. Ela é incapaz de se rebelar. Suas organizações de classe se mostram muito fracas. Como vão defender mudanças no câmbio se têm empresas endividadas em dólar? Líderes ficam manietados. Eles sentem que estão indo para o cadafalso, mas não sabem o que fazer; estão divididos. 


Não é fato que muitas empresas ganham mais com o mercado financeiro do que com a produção?

Isso também. Na hora em que se transforma uma indústria numa maquiladora, o câmbio já não importa mais. Porque se importa tudo. É até bom que seja alto porque seu produto fica barato. O câmbio é importante quando há conteúdo nacional e se paga salários para trabalhadores e para engenheiros. Quando não se paga nada disso, acabou, não é mais empresário industrial. Precisamos de um desenvolvimento baseado na responsabilidade fiscal e cambial, na afirmação de uma taxa de lucro satisfatória para empresários, da não necessidade de uma taxa de juros satisfatória para os rentistas. Para isso é preciso convencer a sociedade e precisamos de políticos com liderança que sejam capazes de fazer isso. 


O sr. enxerga essa liderança?

Não. O PT perdeu essa oportunidade, que foi a primeira que tivemos desde o Cruzado. Pode ser que se reconstrua. A indicação do Levy representa um fracasso para os desenvolvimentistas. Eles não conseguiram fazer o seu trabalho. Mas não deixaram o país numa grave crise. A crise de 98 foi muito pior. 


O sr. se arrependeu de ter apoiado a presidente naquele ato no Tuca?

Não me arrependo. Era preciso escolher entre um candidato desenvolvimentista e social e um outro candidato liberal, portanto profundamente contrário aos interesses nacionais, que era o Aécio. 


Não houve, então, estelionato eleitoral?

Isso é bobagem. É uma concepção muito grosseira e simplista de entender o que é desenvolvimentismo. As boas ideias desenvolvimentistas são de responsabilidade fiscal, portanto ela tinha que restabelecer isso. 


Qual sua avaliação do governo Dilma?

Os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula/Dilma fracassaram do ponto de vista econômico. Quem foi altamente bem-sucedido foi Itamar Franco, em cujo governo FHC foi herói por causa do Real. Mas nos quatro anos que ele governou, o câmbio se apreciou brutalmente e resultado foi muito ruim; houve duas crises financeiras. 


No governo do PT houve o boom de commodities, o crescimento dobrou. Lula teve o grande mérito de fazer distribuição de renda com êxito e foi muito bom. Mas Lula deixou para Dilma uma taxa de câmbio absolutamente apreciada. Ela não conseguiu sair dessa armadilha do câmbio altamente valorizado e do juro alto. Ela tentou nos dois primeiros anos e fracassou. Não houve retomada dos investimentos industriais porque o câmbio era insatisfatório e porque precisa tempo para isso. 


A economia voltou à sua situação dos últimos 35 anos: semi-estagnação, um crescimento baixíssimo. Ela tentou a política industrial, um velho erro dos desenvolvimentistas clássicos, que supõem que ela resolve tudo. Resolve coisa nenhuma. É uma compensação para uma taxa de câmbio apreciada no longo prazo que torna as empresas não competitivas e com expectativas de lucro muito baixas. Ela gastou quase 2% do PIB em desonerações fiscais que resultaram em nada.


São políticas de enxugar gelo. Sou a favor delas, mas de forma estratégica, em momentos específicos. Todos os países fazem. Nos asiáticos foi elas foram muito importantes e continuam sendo. Mas esses países tinham a macroeconomia absolutamente equilibrada, os preços macroeconômicos certos. 


Como certos?

É uma tese central do novo desenvolvimentismo que venho desenvolvendo nos últimos 15 anos. Na macroeconomia do novo desenvolvimentismo, países devem ter cinco preços certos. A taxa de lucro deve ser satisfatória para os empresários investirem; a taxa de juros deve ser baixa; a taxa de câmbio dever ser competitiva; a taxa de salários deve ser compatível com a taxa de lucro dos empresários; a inflação deve ser baixa. 


São os pressupostos. No Brasil, desde Plano Real, a inflação é baixa, a taxa de lucros é insatisfatória para os empresários do setor produtivo, a taxa de câmbio é absolutamente apreciada no longo prazo. A taxa de juros permaneceu alta quase o tempo todo. E a taxa de salários cresceu mais do que a produtividade. Nessas condições, não há economia que cresça. É preciso fazer ajuste fiscal porque os dois últimos anos desorganizaram fiscalmente o país. Mas ajuste fiscal não resolve os problemas do país. Tem que ser feito, estou de acordo com a política do [Joaquim] Levy agora nesse ponto. 


Estamos de volta a uma situação de semiestagnação de longo prazo, que vivemos há muitos e muitos anos. O Brasil continua numa armadilha macroeconômica de uma taxa de câmbio altamente apreciada e uma taxa de juros muito alta. Isso inviabiliza qualquer investimento das empresas industriais e significa desindustrialização e baixo crescimento ou quase estagnação. O crescimento da economia brasileira per capita de 1980 para cá é de menos de 1%, é 0,9%. Quando foi de 4,1% nos trinta anos anteriores. É o país que não faz o 'catching up', não estamos diminuindo a distância em relação aos países ricos. 


Nós brasileiros, no plano econômico, estamos fracassando lamentavelmente nos últimos 30 e tantos anos. Por que a taxa de jutos é escandalosa. E mais ainda porque a taxa de câmbio é apreciada no logo prazo desde 1990/1991. O Brasil só cresceu de maneira extraordinária porque neutralizou a doença holandesa entre 1930 e 1980, que foi o período da revolução industrial brasileira, quando tivemos um crescimento sem igual no mundo. 


A doença holandesa é uma apreciação permanente e variável da taxa de câmbio. Decorre do fato de que o país tem recursos naturais abundantes e baratos, que podem ser exportados com lucros satisfatórios para as empresas um a taxa de câmbio substancialmente mais apreciada do que a taxa de câmbio que é necessária para as empresas industriais e de serviços tecnológicos comercializáveis internacionalmente sejam competitivas. 


Em preços de hoje, as empresas de commodities precisam de uma taxa de câmbio de R$ 2,50 por dólar. As empresas industriais brasileiras para serem competitivas precisam, na média, de R$ 3,10. Essa diferença é a doença holandesa. O jeito de neutralizá-la é através de um imposto. Nós tínhamos esse imposto, que era o confisco cambial. Foi desmontado com a abertura comercial de 1990/91. 


Eu me penitencio nesse ponto porque, como ministro da Fazenda em 1987, fui quem deu início formalmente ao processo de abertura comercial. 


E agora com o dólar mais elevado, o que muda?

Agora diminuiu a diferença e a doença holandesa fica bem menor. Mas é temporário. Consequência da queda do preço das commodities, da política norte-americana e de uma certa perda de confiança na economia brasileira. Passada a crise ele volta a se apreciar e em termos reais e vai voltar a girar em torno de R$ 2, 50, não em torno de R$ 3,10. A desvantagem competitiva vai continuar, o Brasil vai continuar semi-estagnado, a desindustrialização vai continuar a acorrer. 


O senhor está pessimista?

É claro. Não vejo nenhum sinal de que esse problema vai ser enfrentado. Nem da parte do governo, nem das oposições, nem da academia.

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"A CONSTRUÇÃO POLÍTICA DO BRASIL"

Autor Luiz Carlos Bresser-Pereira

Editora Editora 34

Quanto R$ 65 (464 págs.)



Deputados da Bahia deram bolsa a políticos, empresários e parentes

Doadores de campanha, políticos, empresários e parentes de deputados constam entre os beneficiários de bolsa-auxílio para estudantes carentes paga pela Assembleia da Bahia entre 2011 e 2014. 


O programa consumiu R$ 19 milhões dos cofres baianos. Os recursos foram depositados nas contas de 3.349 alunos ou seus responsáveis. 

                                                              Editoria de Arte/Folhapress
Em parceria com o "Meu Congresso Nacional", portal que mapeia informações sobre as atividades parlamentares e doações para candidatos, a Folha identificou 80 doadores da campanha de 2014 entre os beneficiários. 


Mesmo considerados "carentes", eles doaram cerca de R$ 330 mil a candidatos na Bahia, R$ 163 mil repassados a campanhas dos próprios deputados que decidiam quem receberia o auxílio. 


Cada político tinha uma "cota" de R$ 10 mil mensais para distribuir como auxílio-estudantil. Os recursos eram repassados às faculdades. 


O PRB foi o partidos cujos candidatos mais receberam doações de beneficiários do programa. Os deputados federais Márcio Marinho e Tia Eron e o estadual Sildevan Nóbrega receberam, juntos, R$ 48 mil de oito bolsistas. 


O ex-deputado estadual Deraldo Damasceno (PSL) foi o que mais ganhou: recebeu R$ 34 mil para a campanha de três bolsistas que, juntos, receberam R$ 14 mil de bolsa. Todos trabalhavam com o deputado e ganhavam salários entre R$ 5 mil e R$ 11 mil. 


Augusto Castro (PSDB) teve R$ 15 mil em doações de um funcionário que recebeu R$ 22 mil em bolsas de estudo nos últimos três anos. 


BOLSISTA MILIONÁRIO
 

Dentre os "estudantes carentes" está o atual deputado estadual Alex Lima (PTN), que recebeu R$ 2.500 de auxílio em 2012 –dois anos antes de eleger-se. Em 2014, declarou ter R$ 1 milhão em bens. Ele alega ter passado por período de dificuldades financeiras. 


Hoje vereador em Salvador, Luiz Carlos (PRB) recebeu R$ 7.126 do programa em 2011, situação semelhante à do candidato a deputado federal Roberto Pina (PMDB) e à de Raquel Boa Morte (PSD), candidata a vice-prefeita de Caravelas (BA) em 2012. 


Ela declarou ter R$ 438 mil em bens, mas também foi enquadrada como "carente". Ambos não foram eleitos. 


Parentes de políticos também receberam o benefício –caso de Karine Pepe de Souza Leão Cavalcanti, sobrinha do vice-governador João Leão (PP) e prima do ex-deputado estadual e hoje deputado federal Cacá Leão (PP). 


Também obtiveram bolsas o irmão e uma sobrinha do ex-deputado Yulo Oiticica (PT) e uma prima e quatro sobrinhas do presidente da Assembleia, Marcelo Nilo (PDT). 


Ainda constam no rol de beneficiários empresários como o dono do instituto de pesquisa Babesp, Roberto Matos. Em 2014, a empresa foi contratada por Nilo para fazer pesquisas por R$ 130 mil, segundo a Justiça Eleitoral. 

O auxílio-estudantil foi criado em 2011. A distribuição, porém, foi suspensa a partir de 2015, após o Ministério Público da Bahia argumentar que a concessão de benefícios estudantis não é papel do Legislativo.



Pressionada, presidente fala mais e amplia sua exposição

Pressionada pela deterioração da economia, pela perda do controle político do Congresso e pelo derretimento de sua popularidade, a presidente Dilma Rousseff aumentou sua exposição para tentar reagir à crise em que o governo está mergulhado. 


Excepcionalmente calada e sumida até o fim do Carnaval, Dilma apareceu e falou mais em 10 dias do que nos 50 dias anteriores deste segundo mandato. 


A alteração na agenda segue conselho dado pelo ex-presidente Lula. 


De 20 de fevereiro a 1º de março, Dilma duplicou o número de viagens a trabalho, concedeu ao menos três entrevistas (ato inédito até então em 2015) e aumentou o ritmo de discursos. 


Nesse período, construiu agendas positivas em cinco viagens, e participou de inaugurações na Bahia e Rio Grande do Sul. Neste domingo, também deve estar na posse do presidente eleito uruguaio Tabaré Vázquez. Depois, tem eventos no Rio. 


Em nenhuma delas foi hostilizada, como ocorreu em Campo Grande (MS) no início de fevereiro. 


Em suas falas, também após conselho de Lula, adotou um tom mais agressivo. 


No dia 20, por exemplo, disse que se a corrupção na Petrobras tivesse sido descoberta e punida no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o atual esquema desvendado pela Operação Lava Jato não teria se alastrado. 


Depois, no dia 25, disse que a queda da nota de crédito da estatal era fruto da "falta de conhecimento" sobre a capacidade da empresa. 


A agenda subitamente cheia e as palavras mais duras contrastam com o isolamento experimentado pela presidente durante esse começo de ano, que atraiu críticas de opositores e aliados. 


Para os primeiros, o sumiço da presidente indicava sua incapacidade de lidar com a crise. Para os segundos, a atitude de Dilma, em vez de minorar as dificuldades, as alimentava. 


Graças à mudança de atitude, 2015, até então o ano em que Dilma havia menos falado desde sua chegada ao Planalto, se aproxima do ano passado em termos de falas da presidente. 


Somados, foram 12 discursos e entrevistas até a conclusão desta edição. 


É um pouco menos do que 2014, quando essa soma alcançou, até o dia 1º de março, 14 (a pior até então). 

Simultaneamente, apesar de manter contas em redes sociais atualizadas com bastante frequência, outros canais de comunicação de Dilma, como o "Café com a Presidenta", estão inativos desde junho de 2014. 

Editoria de Arte/Folhapress




Procuradores reagem a crítica de chefe da AGU sobre acordos

Em mais um capítulo do embate entre o Ministério Público e a Advocacia-Geral da União, associações de procuradores da República reagiram à crítica feita pelo ministro Luís Inácio Adams sobre a atuação da força-tarefa da Operação Lava Jato. 


Em nota, divulgada na sexta-feira (27), a Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR) e a Associação Nacional do Ministério Público de Contas (Ampcon) repudiaram acusação do ministro de que os procuradores tentam utilizar os acordos de leniência como instrumento de ameaça para obter confissões. 


"Ao externar essas imaginações, fica óbvio que o ministro assume um protagonismo a que nem mesmo os advogados privados das empreiteiras e dos presos na operação se propuseram", criticaram as entidades.


Na nota, as entidades dos procuradores federais ressaltaram que,desde o iníciodas apurações, o Ministério Público Federal foi procurado por investigados e presos e "esclareceu e fixou condições que observam estritamente o que exige a lei". 


"As ameaças antevistas são outras: as que buscam violar a Lei Anticorrupção, sem reparação integral do dano, em prejuízo à União", disseram. "A ANPR e a Ampcon reafirmam a total confiança nos procuradores da República que se dedicam à Operação Lava Jato", acrescentaram.


Na quarta-feira(25),procuradores federais que atuam na Operação Lava Jatos e reuniram com ministros do TCU (Tribunal de Contas da União) para defender que os acordos de leniência com empresas investigadas sejam feitos pelo Ministério Público Federal, e não pela CGU (Controladoria Geral da União).


O argumento é de que o órgão do governo federal não tem acesso a informações sigilosas já obtidas no rastro da Operação Lava Jato e, assim, poderia aceitar dados que não são novos. No dia seguinte, em entrevista publicada pelo jornal "O Estado de S. Paulo", o ministro avaliou como um "absurdo" que o Ministério Público, com um discurso avaliado por ele como "político" e "ideológico", queira interferir na condução de investigação que cabe à CGU.


Procurado pela Folha, o ministro avaliou as críticas feitas pelas associações como "impróprias" e considerou que a intenção de procuradores federais de bloquear previamente a realização de acordos de leniência é uma forma de pressão. 

"A minha crítica, e eu a mantenho, é a de eles quererem avançar em competência que é de outros órgãos", observou o ministro. Ele ressaltou que, em nenhum momento, fez críticas à Operação Lava Jato.



A Camargo Corrêa pode virar uma Siemens

A decisão do presidente e de um dos vice-presidentes da Camargo Corrêa de colaborar com a Viúva pode significar o início de um novo tempo nas relações de grandes empresas com o Estado. Se a empresa aderir, poderá se transformar numa Siemens.


Nada garante que isso vá acontecer, mas a multinacional alemã foi do inferno ao paraíso em poucos anos. Com 400 mil empregados em 190 países, ela corria o risco de ser declarada inidônea nos Estados Unidos e na Alemanha. Resolveu corrigir-se. Reconheceu que distribuiu US$ 1,4 bilhão em 65 países e abriu uma investigação interna. Foram analisados 127 milhões de documentos e descobertos novos malfeitos. A Siemens contratou Theo Waigel, ex-ministro da Economia da Alemanha, para uma posição de superombudsman. Ele visitou 20 países, reuniu-se com cerca de 1.500 pessoas e ficou com pouco tempo para outras atividades. De seu trabalho resultou que a empresa tem um novo lema: "A Siemens só faz negócios limpos". A faxina foi geral. No primeiro ano, o ombudsman fez mais de 100 recomendações, todas aceitas. No segundo, 40. No terceiro, apenas 10. Criou uma sistema de controle de denúncias. Para garanti-lo, apresentavam-se falsas reclamações, para ver se elas eram varridas para baixo do tapete.


Waigel concluiu seu trabalho garantindo que "não há risco sistêmico" quando se faz uma faxina. No Brasil, por exemplo, a Siemens colabora com as autoridades nas investigações sobre o cartel metroferroviário que operou em governos do tucanato paulista. Infelizmente, as autoridades ainda não colaboraram o suficiente para que o caso desse em alguma coisa.

 
FRITURA


A doutora Dilma encarregou o ministro Joaquim Levy de negociar com a agência Moody's para que a nota de crédito da Petrobras não fosse rebaixada. Ele tentou durante o Carnaval, quando esteve em Nova York, e novamente na segunda-feira passada. Deu água.


Negociações como essa são comuns. Às vezes dão certo, às vezes fracassam. Valem pelo segredo em que são mantidas, seja qual for o desfecho. Se Levy fosse bem-sucedido, o sigilo evitaria que a Moody's parecesse ter sido pressionada.


Rebaixada a Petrobras, o governo (mas não a Fazenda) revelou a gestão malsucedida.

Pode ter sido pura incompetência, ou um lance de fritura de Levy.

 
PERIGO


Se fossem poucos os problemas do comissariado, apareceu um novo. A possibilidade de que surjam novos fatos documentados sobre as petrorroubalheiras, vindos dos Estados Unidos, onde pelo menos duas agências investigam a Petrobras. 


Se isso acontecer, é certo que renascerá a tese dos "inimigos externos". Será falsa; o governo americano zela pela saúde de seu mercado de ações, onde papéis da empresa são negociadas na Bolsa.


Funcionários da Securities and Exchange Commission já estiveram no Brasil. 


Em Pindorama, essa função é da Comissão de Valores Mobiliários, com quem diretores da Petrobras fizeram pelo menos sete acordos. Como diria o comissário Luís Inácio Adams, essa é um "especificidade" do Brasil.

 
SUGESTÃO


A CPI da Petrobras poderia funcionar em Curitiba. 


Lá ela ficaria mais perto das duas pontas da questão: do juiz Sergio Moro e da carceragem.

 
COTA DO PMDB


Na roda de fogo para segurar a votação da PEC da Bengala, chegou a um comissário do Planalto uma estranha proposta.


Aprovada, a emenda bloquearia a nomeação de cinco ministros do Supremo Tribunal Federal que irão para as vagas dos titulares que completarão 70 anos durante o mandato da doutora. O PMDB seguraria a PEC se ganhasse uma cota, influenciando a escolha de dois dos novos ministros.

 
O JUIZ DO PORCHE


O juiz Flávio Roberto de Souza foi afastado do caso de Eike Batista.


O Ministério Público bem que poderia sugerir uma medida que desse alegria à cidade. 

Deveriam obrigá-lo a circular durante uma semana, pela orla, no Porsche do ex-bilionário. 


Se bater em cachorro pode levar uma pessoa a correr o risco de ter que limpar canis a pedido da Promotoria, isso não seria absurdo.

 
URUCUBACA


O repórter Lauro Jardim informa: O doutor Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, tinha seu conforto garantido pelo bloqueio de um elevador do prédio da empresa sempre que fosse usá-lo.


Durante 11 anos ele dirigiu a poderosa subsidiária da Petrobras e caiu na rede das petrorroubalheiras. Ele pode até ser um santo, mas chamou uma urucubaca. 


É dura a vida de magnata que bloqueia elevador.


Eike Batista está no chão. Edemar Cid Ferreira, Angelo Calmon de Sá e Theodoro Quartim Barbosa quebraram seus bancos e Richard Fuld destruiu a Lehman Brothers. Paulo Skaf valeu-se do mesmo privilégio como presidente da Fiesp apenas por algum tempo. Tomou uma surra na última eleição para o governo de São Paulo. 


A TORTURA E O DOUTOR WADIH DAMOUS


Têm sido muitas as linhas de defesa do pessoal metido nas petrorroubalheiras. Uma delas revela o tamanho do cartel de mistificações que se pretende construir. Os presos de Curitiba estariam sendo submetidos a um tratamento humilhante e, o que é pior, a uma tortura. Muita gente boa gosta desse argumento. Nas palavras do doutor Wadih Damous, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil:

"Delação premiada não é pau de arara, mas é tortura."


Não é. Primeiro porque a tortura é crime, e a colaboração com a Viúva é um instrumento legal. Aceitando-se a essência retórica do doutor, prender uma pessoa para obter dela uma confissão seria uma forma de torturá-la. Nessa transposição, até o barulho da televisão do vizinho pode ser uma tortura. O uso da palavra com essa conotação adjetiva faria sentido na Suécia. No Brasil, país governado por uma senhora que na juventude passou pela experiência da tortura, a prestidigitação é ofensiva.


Uma observação de Dilma Rousseff a respeito da sua experiência deveria levar o doutor Wadih Damous a refletir:

"A pior coisa que tem na tortura é esperar. Esperar para apanhar." 


Palmatórias, socos, pau de arara são sofrimentos terríveis, porém episódicos. Terminado o suplício, o preso volta para a cela e lá ele tem que esperar que o chamem de volta, "esperar para apanhar". 


Os presos de Curitiba estão encarcerados e vivem numa situação de constrangimento legal. Chegaram a essa situação porque são acusados, com provas, de terem delinquido. Os que estão colaborando com a Viúva reconhecem isso. 


São dois os tipos de pessoas que se incomodam com a colaboração dos acusados. Um grupo, pequeno, é composto por cidadãos que para isso são remunerados. Eles defendem as empreiteiras, todas as suas obras e todas as suas pompas. Outro grupo, bem maior, defende o comissariado petista. Numa trapaça da história, nele estão pessoas que sabem perfeitamente o que é tortura.



Lava Jato: pelo menos 35 políticos sob investigação

Rodrigo Janot deve pedir inquérito contra agentes políticos nesta semana


Operação Lava Jato avança para o seu momento mais aguardado desde que foi deflagrada, há quase um ano, em 17 de março de 2014. É aguardado para esta semana o pedido de abertura de inquéritos contra políticos envolvidos com o esquema de desvio de recursos da Petrobras. Fontes ouvidas pelo Congresso em Foco relatam que pelo menos 35 políticos deverão ser alvo das investigações a partir de agora, após terem sido citados nas apurações que correm na Justiça Federal no Paraná. Esta, no entanto, será apenas a primeira parte envolvendo detentores e ex-detentores de mandato. Até agora, as apurações recaiam sobre ex-funcionários da estatal e empreiteiras acusadas de atuar em cartel e obter contratos da Petrobras mediante o pagamento de propina.

As apurações contra políticos tramitarão em diferentes esferas da Justiça. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedirá no Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquéritos contra deputados e senadores. O tribunal é o foro responsável por dar andamento e julgar os processos contra parlamentares, ministros e outras autoridades federais. Caberá ao ministro Teori Zavascki a condução dos procedimentos na corte.


Investigadores da Lava Jato ressaltam que Janot deverá pedir o arquivamento de procedimentos preliminares contra alguns políticos, por considerar os indícios de crime frágeis. Já tramitam no Supremo mais de 40 petições ocultas, sem qualquer referência ao andamento processual ou identificação dos alvos, contra autoridades, decorrentes dos depoimentos recolhidos na Operação Lava Jato.

O procurador-geral da República decidiu não pedir a abertura de ação penal contra nenhum dos políticos, nem mesmo o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), contra quem já tramita inquérito no STF. A força-tarefa chefiada pelo procurador-geral defende tratamento isonômico para todos os políticos.

Ainda não se sabe quais parlamentares estarão na temida lista de Janot. A expectativa é que figuras de projeção no Congresso Nacional apareçam na relação. Delatores já citaram, de um modo ou de outro, desde o nome do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), até o do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ambos negam qualquer envolvimento com as denúncias de corrupção na estatal. Diversas lideranças partidárias também já tiveram seus nomes associados ao esquema em algum depoimento.

As apurações envolvendo ex-governadores e ex-parlamentares que não desfrutam mais da chamada prerrogativa de foro correrão nas esferas inferiores da Justiça Federal. No caso dos governadores citados, os processos seguirão no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A fase de inquérito (investigação preliminar) será conduzida pelo ministro Luís Felipe Salomão. Mas a eventual abertura de ação penal dependerá da autorização das respectivas assembleias legislativas.

Há pelo menos duas petições contra governadores citados nos depoimentos da Lava Jato no STJ: uma contra Tião Viana (PT-AC) e outra contra Pezão (PMDB-RJ). 

Esses casos, porém, estão ocultos e não aparecem no sistema de busca processual do tribunal. Há um dificultador para os processos contra os chefes dos Executivos estaduais: em geral, eles fazem prevalecer a maioria que tem em seus legislativos para barrar as apurações no STJ.

O andamento do processo depende do aval de dois terços dos deputados estaduais. Até hoje, apenas o então governador Ivo Cassol (PP-RO), em litígio com a assembleia à época, virou alvo de uma ação penal no Superior Tribunal de Justiça. No STJ também tramitam ações contra conselheiros de tribunais de contas. Neste caso tende a se enquadrar o ex-deputado e atual conselheiro do TCE da Bahia Mário Negromonte (PP-BA), citado por delatores do esquema como beneficiário de repasses destinados ao Partido Progressista.

No caso de políticos atualmente sem mandato, como ex-governadores e ex-parlamentares, as investigações seguirão na Justiça Federal. Alguns ex-governadores como Roseana Sarney (PMDB-MA) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ) já foram citados por delatores.

Além de pedir a quebra dos sigilos fiscal e bancário dos políticos sob suspeita, o procurador-geral também quer que o Supremo também quebre o sigilo de todas as movimentações nos procedimentos contra deputados e senadores.



Congressoemfoco

Operação Lava Jato trava concessão de aeroportos brasileiros

A Operação Lava Jato, da PF, teve como efeito colateral travar a terceira fase do programa de concessões de aeroportos brasileiros, prevista para este ano. Nem o mais otimista no governo prevê leilões de terminais tão cedo. 

Segundo a Folha apurou, o programa, com sorte, só será viabilizado na virada de 2015 para 2016, em data ainda indefinida. Na lista de espera estão os aeroportos de Salvador e Porto Alegre. 


Editoria de Arte/Folhapress
A avaliação interna é que não há ambiente para realizar as concorrências neste ano devido ao envolvimento das principais empreiteiras do país no escândalo de corrupção da Petrobras. 

Um assessor de Dilma brinca, dizendo que quem não está na carceragem da PF em Curitiba, onde está centrada a Lava Lato, teme parar lá. 

Nas duas primeiras fases, entre 2012 e 2013, as principais construtoras brasileiras tiveram papel central na formação dos consórcios que levaram os aeroportos de Guarulhos, Viracopos, Brasília, Galeão e Confins. 

Hoje, o temor de restrições financeiras paira sobre construtoras como Odebrecht, UTC, OAS, Engevix e Camargo Corrêa. As companhias investigadas pela Lava Jato têm dívidas com bancos privados e públicos que superam os R$ 130 bilhões, conforme revelou a Folha em novembro. 

Há, ainda, outros dois fantasmas gerando insegurança para novos negócios em terminais aeroportuários: a possibilidade de que as grandes construtoras sejam proibidas de assinar contratos com o poder público –algo que Dilma Rousseff tenta evitar– e a cobrança bilionária feita pelo Ministério Público Federal a título de ressarcimento do que foi desviado na estatal. 

Nesse cenário, a Lava Jato reduz drasticamente o número de atores aptos a disputar a concessão de aeroportos e, com isso, tende a limitar o ágio de eventuais leilões. 

Autoridades acreditam que administradores independentes podem até arrematar algum terminal na próxima fase de leilões, mas, sem associação com construtoras, seriam obrigados a subcontratar as obras, o que elevaria despesas e poderia reduzir o apetite de seus lances. 

Embora evite vínculo direto com a operação da PF, o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Eliseu Padilha, admite que o ambiente é menos favorável. "Talvez não se consiga fazer o pregão neste ano. O mercado não está bom para entrar com expectativas muito altas", afirma. 

Padilha ponderou, contudo, que o setor de aviação deve crescer ao menos 7% pelos próximos 20 anos, o que torna o país naturalmente atrativo para investir. 

Para contornar as dificuldades atuais, o ministro diz que o governo tentará atrair mais parceiros estrangeiros. 

Em reuniões recentes com ministros, Dilma manifestou preocupação com a deterioração do ambiente de negócios causada pela Lava Jato, que ameaça uma das principais estratégias do Planalto para amenizar a crise de popularidade da presidente: o fortalecimento dos leilões de infraestrutura. 

A presidente orientou sua equipe a tocar todas as obras que não tenham relação direta com a Petrobras, para evitar o distanciamento entre o governo e o empresariado.




Maragogipe: Chanchada do PT vira drama na terra de Zé Trindade


Uma chanchada eleitoral com todos os ingredientes para terminar em clamoroso desastre social

Neste sábado, 28, fim de fevereiro para não esquecer, o Consórcio Estaleiros Paraguaçu(CEP) - formado pelas empreiteiras OAS, UTC e Odebrecht -  confirma o triste desenlace de um engodo anunciado: o encerramento das atividades na obra monumental de engenharia naval em Mararagogipe, coração do Recôncavo Baiano. Prometia empregar 5 mil pessoas na fase de construção e mais 6 mil em seguida à inauguração, anunciada para o ano eleitoral de 2014.

O megaempreendimento de infraestrutura nacional, realizado na Bahia, foi vendido pelo governo federal, desde o lançamento da pedra fundamental em julho de 2012, como sonho dourado no Nordeste. Atravessou assim a campanha que reelegeu presidente da República a petista Dilma Rousseff. De quebra, fez de Rui Costa (empurrado pelo muque do então ocupante do Palácio de Ondina e atual ministro da Defesa, Jaques Wagner) governador do estado já no primeiro turno.

A miragem de R$ 2 bilhões prometida com pompa e circunstância, em badalação sem tamanho no lançamento da pedra fundamental, foi um festival de guisos e euforia. Presentes Dilma, Wagner, Rui, Graça Foster, Gabrielli e a nata do poder no governo petista. Todos ao lado de poderosos empresários nacionais e estrangeiros, acatados executivos de empresas (antes da Lava Jato), prefeitos, parlamentares e a gente humilde e trabalhadora do lugar.

Tudo, ou quase, desmorona agora em meio ao silêncio quase completo. De omissão ou cumplicidade.

Propagava-se o ressurgimento da indústria pesada Off-Shore na Bahia (plataformas e equipamentos para exploração, transporte e distribuição de petróleo). Tudo antes de explodir a Lava Jato, que arrola corruptos e corruptores no maior escândalo da história brasileira e tem como pano de fundo a Petrobras, empresa do coração de todos. Executivos das empresas brasileiras do Consórcio estão presos, há meses, na carceragem da PF em Curitiba. Dilma, então, disse em seu discurso sobre a construção do estaleiro, "ser esse o jeito - diferentemente dos europeus - do governo brasileiro enfrentar a crise econômica: criando mais emprego e promovendo desenvolvimento". Uma peça histórica de retórica e enganação, que está na Internet e merece consulta.  

O saudoso humorista Zé Trindade, honra da Era de Ouro do Rádio e glória do chamado cinema de chanchada no Brasil, fez o seu povo sorrir e espantar o mau humor durante décadas. Mesmo em épocas as mais bicudas, e em governos os mais caóticos e mais desastrados, ou os mais intolerantes, partia dele a tirada, a galhofa, o chiste ou a piada que levava à gargalhadas, ajudava sua gente a suportar e resistir ao tranco.

Zé Trindade usava duas expressões que funcionavam como cartão de visita em suas apresentações e filmes. A primeira era uma espécie de registro de identidade geográfica e afetiva que ele afirmava alto e bom som em todo lugar: "Eu sou baiano de Maragogipe!", marca registrada ainda mais engraçada pelo o acento genuíno que o artista emprestava ao pronunciar o nome da sua cidade.

A segunda, de cunho político e social (além de alcance nacional), era um bordão crítico. Provavelmente, se vivo estivesse, o fabuloso humorista o estaria repetindo com frequência nestes dias cavernosos do segundo mandato presidencial da petista Dilma Rousseff: "Nossa situação é lamentável", dizia o maragogipano famoso, acentuando com seu sotaque e jeito inimitáveis cada sílaba da palavra la-men-tá-vel.

Difícil imaginar, apesar de seu prevalente bom humor, o sentimento de Zé Trindade, diante do quadro destes dias em sua terra. Gritos de desempregados e familiares que se multiplicam. Choro de desiludidos e indignados diante da situação que se delineia na véspera do encerramento das atividades no estaleiro do Paraguaçu, como mostrou ontem a Tribuna da Bahia, em esclarecedora reportagem. 
      
Ô, Bahia! É triste, dramático até em algumas passagens. Mas é necessário relembrar sem esconder ou escamotear fatos, a tragicomédiaque se desenrola em Maragogipe. Uma chanchada eleitoral com todos os ingredientes para terminar em clamoroso desastre social na terra de Zé Trindade. A conferir.


Estaleiro Paraguaçu, em Maragogipe encerra atividades neste sábado (Foto: Divulgação)Estaleiro Par aaguaçu, em Maragogipe encerra atividades neste sábado (Imagem: Divulgação)
BLOG DO NOBLAT 


É Noblat, a desventura dos baianos não é privilégio só deles não. O projeto da Refinaria Premium II, no Ceará, teve seu futuro investimento descontinuado pela Petrobras. O estelionato eleitoral virou marca petista. Vamos  aguardar quem serão as próximas vítimas.


Agora a vaca, além de tossir, foi mesmo para o brejo...

A matéria anterior foi indicada pelo amigo e colega Roberto Abdian e está intimamente ligada a esta  que passo a escrever agora. 

Embora eu não me deixe levar por críticas, às vezes, lhes dou trela. A mais recente delas foi o comentário, onde um "Anônimo" que não é o Veneziano, cobrava-me por eu reproduzir aqui no meu blog matérias dos maiores portais e  sites políticos do meu país, que assim como eu estão indignados com os desmando desse governo maldito chamado PT. 

Confesso que até fiquei muito feliz com a tal repreensão, sinal que meu objetivo está sendo alcançado, pois tenho certeza que estou incomodando-os e constrangendo-os. 

Ao que parece o tal anônimo quis dizer que não sei escrever. Bom, não sou assim, uma Brastemp, mas eu posso garantir que me expresso, tanto falando quanto escrevendo, muito melhor do que a ídola dele. Ou seja: a governanta, que aliás, mal e porcamente sabe falar.

Pois é, meu amigo Abdian, nosso país que possui as maiores riquezas naturais do mundo, tais como a Floresta Amazônica, a Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas, o Aquífero de Alter do Chão no rio Tapajós, no Pará, de onde sou nativa, me trás arrepios pensar que todos esse patrimônio esteja  entregue nas mãos nefastas desse governo pródigo, perdulário e mal dirigido por uma governanta loroteira dona de uma ganância pertinaz que com requintes de misoginia se utilizou da ingenuidade das mulheres induzindo-lhes a agraciarem-na com seus votos, e portanto, tornando-as suas maiores vítimas.

Levando-se em conta as críticas nas redes sociais sobre sua cinturinha de ôvo ou comparação  com um botijão de gás por ocasião de sua posse, podem ter mexido com os "brios" de Dilma, se é que ela os têm. Em assim sendo, do mesmo modo que ela deu um upgrad no seu visual para transformá-la numa candidata presidencial mais "palatável" aos olhos dos incautos eleitores, Dilma pode muito bem ter se submetido ao "sacrifício" de uma cirurgia bariátrica para não perder pontos perante sua claque de petistas e petrouxas. 

Não me surpreende que sua "dieta milagrosa" tenha sido fruto de mais uma de suas pinocagens, posto que, a única coisa que mexe com Dilma é sua obsessão pelas aparências. Portanto, depois do sumiço e da recente reaparição, visivelmente menos gorda,  não descarto a possibilidade de uma cirurgia de redução de estômago. Aliás, eu, particularmente, só acredito nessa hipótese para o sucesso de Dilma na sua tão "eficiente dieta" e em tão curto espaço de tempo.


Por esse ato ela deve ser perdoada. Já os petistas e petrouxas, os verdadeiros culpados pela reeleição de Dilma, é quem deveriam arcar sozinhos com custos do estelionato eleitoral aplicado pela governanta nos eleitores de toda a Nação, após enganar e debochar de todos nós com o episódio da vaca, que além de tossir, pelo visto, agora  foi mesmo para o brejo!
Leopoldina Corrêa

Fim de feira


José Nêumanne - O Estado de S.Paulo
25 Fevereiro 2015 | 02h 05


Faltam 46 meses para o governo Dilma acabar. É tolice tentar abreviar a agonia que, tudo indica (ou melhor, nada indica que não), nos afligirá em três longas prorrogações deste nada promissor ano de dois mil e cinzas. 

Impeachment já ou logo, como exigem alguns, que prometem sair em bloco às ruas no dia 15, é inviável e só interessa por enquanto ao ex abandonado Luiz Inácio Lula da Silva. Este não é mais o ai-jesus de antes, mas continua sem adversários na oposição, cuja única novidade a apresentar ao público pagante era a barba de Aécio, que a tirou para não a pôr de molho.

Talvez venha a ser a mais longa caminhada de um pato manco na História desta República, pois a chefe do governo só conseguirá ser a líder política de que o País precisa para administrar a herança maldita que ela própria se legou se parar de mentir e mancar a cada passo. Por enquanto, o único sucesso que ela tem a apresentar ao eleitorado que a levou de volta ao trono é que este não vai vergar sob seu peso por causa de uma invejável dieta evidentemente bem-sucedida. Fora isso, o que comemorar de uma governante(a) que só não erra quando cala - lembrando aquela frase cruel de Romário sobre Pelé: "Calado, é um poeta"?

Dilma cuspiu nos direitos trabalhistas que jurou proteger; aumentou a tarifa de luz (no Sudeste, calcula-se, em 70%), que prometeu reduzir; e deixou de pagar o Pronatec, que esfregou na cara do adversário em campanha.

Agora, para dar um jeito no cofre, transferiu a responsabilidade para o economista ao alcance. Joaquim Levy saiu do segundo time do candidato derrotado para assumir o que este teria de fazer se ganhasse. E deve agradecer a Deus pelos três pontos porcentuais que ela teve a mais de votos, sempre que se persigna. Cabe-lhe defender o indefensável e salvar a pele da chefona. Se tiver sucesso, será substituído por um companheiro fiel às ideias muito próprias que ela tem da economia. Se não tiver, será apontado como o substituto de Fernando Henrique na condição de bode expiatório preferencial.

Mesmo tendo um escudo para se proteger do material orgânico em que pode resultar sua tentativa de corrigir os erros do próprio passado, contudo, Dilma continua empenhada em dizer e fazer tudo errado. Produziu, por exemplo, depois da Quarta-Feira de Cinzas a piada do carnaval - que tinha tudo para ser a do voo da Beija-Flor até a Guiné Equatorial -, ao transferir a culpa da roubalheira na Petrobrás ao tucano antecessor dos três governos petistas. Agarrou-se à tábua de salvação da delação premiada do ex-gerente Pedro Barusco, que confessou ter começado a roubar discretamente em 1996 (ou 1997?). O professor passou a ser acusado pelo dilúvio universal bíblico e pela seca em que São Paulo virou sertão.

Antes de ser acusado pela traição de Calabar e pela amputação dos braços da Vênus de Milo, o sociólogo desceu das tamancas e bateu abaixo da linha de sua cintura afinada, ao compará-la com o punguista "que mete a mão no bolso da vítima, rouba e sai gritando 'pega ladrão'!" O adversário não foi muito elegante, mas, ainda se levando em conta a eventualidade, é possível concluir que, tendo sido ministra de Energia, presidente do conselho de administração da estatal assaltada , chefe da Casa Civil e presidente no período de 12 anos em que o furto foi "sistêmico", segundo o delator, ela poderia ter ido dormir sem essa.

A galhofa é nossa, mas sugiro que se preste mais atenção em algo mais sério que ela também disse ao voltar da mudez dos idos de Momo. Depois de ter rasgado a bandeira socialista ao garantir que não se apena empresa, para evitar desemprego, mas gente, para punir corrupção, ela deu uma guinada de 180 graus ao afirmar: "Isso não significa de maneira alguma ser conivente ou apoiar ou impedir qualquer investigação ou qualquer punição a quem quer que seja". E completou, repetindo o lugar-comum traduzido do portunhol do aliado Collor: "Doa a quem doer".

O noticiário dá-lhe duas boas oportunidades de provar que será coerente com o "duela a quién duela" que assumiu. Para fazê-lo terá de interromper imediatamente a tentativa canhestra de seu novo controlador-geral da União, Valdir Moisés Simão, de celebrar acordos de leniência com as empreiteiras acusadas de pagar propina a petroleiros, partidos do governo e políticos aliados para tentar evitar delação premiada de empresários presos. A proposta foi avalizada pelo advogado-geral da União, Luís Inácio (que não se perca pelo nome) Adams, outro funcionário a ela diretamente subordinado, e abençoada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), cuja composição é fiel a seu governo. É, porém, contestada pelo Ministério Público Federal, que tem todas as razões do mundo para temê-la. Pois jogaria por terra a oportunidade inédita que a presidente diz perseguir de, enfim, punir judicialmente corruptores.

Outro episódio constrangedor para ela é o das audiências do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo - um dos militantes que não riem da piada do Fernandinho primeiro bode expiatório -, aos advogados dos empreiteiros presos. Sabe-se que ele chamou de medievais nossas masmorras, mas nunca fixou um prego numa barra de sabão para mudar o fato. 

Agora recebe causídicos de luxo, mas não faz idêntico esforço para conseguir nas varas de execuções penais a soltura de 9 mil ex-condenados que já cumpriram pena e não saem da cela por não poderem pagar advogados que tenham acesso à agenda dele. Ou melhor: à agenda controlada pela assessora de confiança, e não a que aos pagadores de seus proventos é dado conhecer. Segundo a Folha, o que ele fez em 80 de 217 dias de trabalho desde o início da Operação Lava Jato foi mantido em segredo, o que torna Sua Excelência o primeiro ministro clandestino da história de qualquer democracia.

Só atitudes dela contra essas tentativas de melar o jogo dissiparão o clima de xepa. Segundo minha avó, "desculpa de cego é feira ruim e saco furado".

*José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor